MUITO ALÉM DO DIAGNÓSTICO: O PESO DO PRECONCEITO NA VIDA DE QUEM ENFRENTA TRANSTORNOS MENTAIS EM MATO GROSSO

Histórias revelam que pacientes enfrentam não apenas a doença, mas o julgamento social, o isolamento e as dificuldades no acesso ao tratamento
Aos 29 anos, o auxiliar de serviços gerais Isaque Lima aprendeu a conviver com extremos emocionais que não aparecem em exames físicos, mas impactam diretamente sua vida. Diagnosticado com transtorno bipolar, ele descreve a própria rotina como uma montanha-russa, marcada por momentos de euforia seguidos por crises profundas.
Antes mesmo de compreender o que enfrentava, no entanto, ele já lidava com outro problema: o julgamento.
“Quando eu dizia que não estava bem, falavam que era falta de força. Com o tempo, eu comecei a me calar”, relata.
Morador de Cuiabá, Isaque passou anos sem diagnóstico. Nesse período, perdeu oportunidades de trabalho, se afastou de amigos e enfrentou episódios de instabilidade que eram interpretados como simples mudança de comportamento.
O diagnóstico trouxe respostas, mas não encerrou os desafios. Segundo o psiquiatra Antônio Barros, a desinformação ainda é um dos principais obstáculos para o tratamento adequado.
“Muitas pessoas associam transtornos mentais à fraqueza, quando na verdade estamos falando de condições clínicas que exigem acompanhamento e cuidado contínuo”, explica.
Dados da Organização Mundial da Saúde indicam que uma em cada quatro pessoas terá algum transtorno mental ao longo da vida. No Brasil, o cenário é ainda mais preocupante, com altos índices de ansiedade e depressão.
Para Isaque, o preconceito se manifesta de forma silenciosa, mas constante.
“Quando descobrem, começam a te tratar diferente. Ou se afastam, ou deixam de confiar. Isso machuca tanto quanto a doença”, afirma.
Esse tipo de reação impacta diretamente a autoestima e pode agravar o quadro clínico. O medo do julgamento faz com que muitos pacientes escondam o diagnóstico ou evitem buscar ajuda, prolongando o sofrimento.
Dentro de casa, a realidade também exige adaptação. A família de Isaque precisou aprender a lidar com a condição após anos de incompreensão.
“No começo, a gente não entendia. Achava que era escolha dele”, relata um familiar.
Especialistas reforçam que o apoio familiar é fundamental para o sucesso do tratamento. A falta de informação, no entanto, ainda é um obstáculo frequente.
Em Cuiabá, o atendimento público em saúde mental vem sendo estruturado por meio de uma rede coordenada pela Secretaria Municipal de Saúde, com foco no atendimento integral aos pacientes. Entre os principais dispositivos estão os Centros de Atenção Psicossocial, como o Centro de Atenção Psicossocial do Ribeirão do Lipa, além das Residências Terapêuticas, que acolhem pessoas em processo de reinserção social.

Atualmente, o município conta com três unidades de CAPS, que funcionam como porta de entrada para o atendimento em saúde mental. Esses espaços são considerados serviços de “portas abertas”, permitindo que pacientes busquem acolhimento sem a necessidade de encaminhamento prévio em muitos casos.
As unidades são divididas por perfil de atendimento. Os CAPS I e CAPS II são voltados para pessoas adultas com transtornos mentais graves e persistentes. Nessas unidades, os pacientes têm acesso a uma série de serviços, como atendimento psicológico e psiquiátrico, terapias individuais e em grupo, visitas domiciliares, busca ativa, além de atividades terapêuticas e oficinas que auxiliam no processo de reabilitação.
Outro ponto importante é o suporte oferecido às famílias, que também passam a integrar o processo de cuidado. A proposta é promover não apenas o tratamento clínico, mas a reinserção social do paciente.
Apesar da estrutura existente, a alta demanda ainda é um desafio. Pacientes relatam dificuldades para manter acompanhamento contínuo, principalmente devido à quantidade limitada de profissionais diante da crescente procura.
Casos mais graves são encaminhados ao Hospital Adauto Botelho, referência no estado para internações e atendimentos especializados.


Para o psiquiatra Antônio Barros, o cenário exige atenção constante do poder público.
“O tratamento em saúde mental precisa ser contínuo e integrado. Não basta apenas oferecer o serviço, é necessário garantir que o paciente consiga permanecer em acompanhamento”, afirma.
Levantamentos do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) mostram que transtornos mentais estão entre as principais causas de afastamento do trabalho no Brasil. Ansiedade e depressão lideram os registros, com crescimento significativo nos últimos anos, especialmente entre jovens adultos.
Especialistas apontam que fatores como pressão social, insegurança profissional e o uso excessivo de redes sociais têm contribuído para o aumento dos casos.

“Muitos jovens chegam ao consultório em estado avançado de sofrimento, porque demoraram a procurar ajuda por medo ou vergonha”, explica o psiquiatra.
Entre as mulheres, o cenário é ainda mais complexo. A sobrecarga da dupla jornada, a pressão social e, em muitos casos, situações de violência, contribuem para o aumento de transtornos mentais.
A expectativa de dar conta de múltiplas responsabilidades acaba invisibilizando o sofrimento emocional, dificultando o diagnóstico e o tratamento.
Outro fator que agrava o problema é o silêncio. Muitos pacientes convivem com sintomas por anos antes de buscar ajuda. Outros interrompem o tratamento por medo de serem rotulados.
Esse atraso pode intensificar os quadros clínicos e aumentar os riscos à saúde.
Para especialistas, a informação é a principal ferramenta para combater o estigma. Falar sobre saúde mental de forma aberta e responsável ajuda a reduzir preconceitos e incentivar a busca por tratamento.
Nesse contexto, o jornalismo desempenha papel fundamental ao dar visibilidade a histórias reais e promover o debate público.
Hoje, Isaque segue em tratamento e tenta reconstruir sua vida com mais consciência sobre sua condição.
“Eu aprendi que preciso me cuidar sempre. Não é algo que vai simplesmente passar”, afirma.
Apesar das dificuldades, ele decidiu não se esconder.
“Se a gente não fala, o preconceito continua. Quando a gente fala, as pessoas começam a entender.”
Em Mato Grosso, milhares de pessoas convivem diariamente com transtornos mentais. Muitas delas enfrentam não apenas os desafios da doença, mas também o peso do julgamento social.
O avanço no acesso ao tratamento é essencial, mas não suficiente. É preciso também transformar a forma como a sociedade enxerga a saúde mental.
Porque, mais do que um diagnóstico, está em jogo o direito de ser compreendido e respeitado.
Autor: Luciana Bueno
Foto: Reprodução





