EQUOTERAPIA TRANSFORMA VIDAS E VIRA MISSÃO DE FAMÍLIA EM MATO GROSSO
Após buscar alternativas para o desenvolvimento do filho, Sirlei criou um centro que hoje atende outras crianças, adolescentes e adultos com deficiência

Da Redação
Foto: Senar-MT
Há 25 anos, o nascimento de Lucas Gabriel mudou a trajetória da família de Sirlei Araújo Faria. O menino nasceu com paralisia cerebral e, diante da necessidade de encontrar alternativas que contribuíssem para seu desenvolvimento, a família conheceu a equoterapia.
O que começou como uma busca por qualidade de vida para o filho acabou se transformando em uma missão. A experiência levou Sirlei a criar um espaço dedicado também ao atendimento de outras famílias.
Hoje, aos 25 anos, Lucas é cadeirante e continua realizando sessões de equoterapia. Sirlei preside a Associação Nativo, instituição onde funciona o Centro de Equoterapia criado a partir da experiência vivenciada pela própria família.
“Quando começamos a equoterapia com o Lucas, vimos a importância da terapia. Como nós tínhamos essa chácara de lazer da família, decidimos montar um centro, não para ajudar só o Lucas, mas outras crianças também”, conta.
Segundo Sirlei, há cerca de duas décadas e meia o acesso à equoterapia era mais restrito e os custos dificultavam a continuidade do tratamento para muitas famílias.
A estruturação da associação levou aproximadamente dez anos e foi realizada inicialmente com recursos próprios. Desde 2011, a instituição conta com parcerias que ajudam a manter e ampliar os atendimentos.
Entre os parceiros está o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural de Mato Grosso (Senar-MT), que contribui para a continuidade do trabalho. Para Sirlei, manter a regularidade das sessões é essencial para os praticantes.
“A parceria com o Senar é uma das mais importantes para nós porque é contínua. É um tratamento que não pode ser interrompido”, afirma.
UM ESPAÇO ALÉM DA EQUOTERAPIA
A convivência com a realidade do próprio filho também fez Sirlei perceber outras demandas enfrentadas pelas famílias de pessoas com deficiência.
Ao longo dos anos, a Associação Nativo ampliou suas iniciativas e passou a desenvolver atividades de inclusão que vão além da equoterapia, incluindo futebol, cultura, capoeira e fisioterapia.
A proposta é oferecer um ambiente acolhedor, no qual crianças e adultos possam desenvolver habilidades, ampliar a convivência social e encontrar um espaço no qual tenham vontade de estar.
“Eu vejo o que meu filho precisa e vejo que outras crianças também precisam. Estamos transformando a instituição em um espaço que a criança gosta de vir e quer vir”, explica Sirlei.
Para ela, acompanhar a evolução dos praticantes representa também uma realização pessoal. A experiência vivida dentro da própria família acabou se transformando em uma oportunidade de contribuir com outras pessoas.
RESULTADOS TAMBÉM SÃO PERCEBIDOS PELAS FAMÍLIAS
A história de Sirlei se aproxima da realidade de outras mães que encontraram na equoterapia uma possibilidade de estimular o desenvolvimento dos filhos.
É o caso de Dulcelene Caetano, dona de casa e mãe de Jéssica, de 23 anos, que tem síndrome de Down.
Jéssica participa das sessões semanalmente. Segundo a mãe, a terapia trouxe mudanças perceptíveis principalmente no equilíbrio, na atenção, na concentração e na segurança para realizar atividades do cotidiano.
“A terapia ajuda ela a conseguir ter essa caminhada com mais segurança”, relata Dulcelene.
A mãe também observa avanços na interação social. De acordo com ela, Jéssica era mais retraída e tímida, mas o contato com outras pessoas durante as atividades contribuiu para ampliar a convivência.
“Só de estar no meio de todas as pessoas, para ela, é muito importante. É muito satisfatório e ajuda no desenvolvimento”, afirma.
Para Dulcelene, acompanhar esse processo é motivo de gratidão.
“Só gratidão mesmo por ter essa equipe maravilhosa que está ajudando a minha filha. Fico muito feliz”, resume.
CAVALO É PARTE FUNDAMENTAL DO PROCESSO TERAPÊUTICO
Na equoterapia, o cavalo participa diretamente das atividades terapêuticas. O movimento tridimensional produzido pelo passo do animal oferece estímulos que podem contribuir para diferentes aspectos do desenvolvimento dos praticantes.
No Centro de Equoterapia, o acompanhamento é individualizado e definido conforme as necessidades e os objetivos de cada pessoa.
A psicóloga Patrícia Mara Correa, que atua na instituição, explica que o trabalho exige uma avaliação específica para cada praticante e acompanhamento contínuo da evolução.
“Esse trabalho da equoterapia é uma missão que vai além do trabalho. Nós acompanhamos todos os dias a evolução de cada criança, até porque o trabalho com cada praticante é individualizado”, explica.
Antes do início das atividades, cada caso é analisado pela equipe multidisciplinar. O centro atende crianças, adolescentes e adultos, com estratégias definidas de acordo com as necessidades apresentadas.
Durante as sessões, são trabalhados aspectos como atenção, concentração, socialização, comunicação, linguagem, equilíbrio, coordenação motora e fortalecimento muscular.
“É muito gratificante ver a evolução. Muitas vezes, antes de um mês, já estamos vendo a criança evoluir”, relata Patrícia.
AGOSTO REFORÇA IMPORTÂNCIA DA EQUOTERAPIA
A relevância da prática ganha destaque em agosto, mês que marca, no dia 9, o Dia Nacional da Equoterapia.
A data contribui para ampliar a visibilidade sobre o método e para destacar o trabalho desenvolvido por profissionais, instituições e parceiros na promoção do desenvolvimento, da inclusão e da qualidade de vida das pessoas atendidas.
SENAR-MT MANTÉM PARCERIA COM CENTROS NO ESTADO
O Senar-MT apoia centros de equoterapia por meio de termos de cooperação técnica e financeira.
No primeiro semestre de 2026, eram 48 centros de equoterapia vigentes em Mato Grosso, com 1.126 praticantes ativos. Na Regional Cuiabá, nove centros mantinham termos de cooperação.
De acordo com Rodrigo Gonçalves, supervisor da Regional Cuiabá, a parceria busca contribuir tanto para o atendimento dos praticantes quanto para a estrutura necessária ao funcionamento dos centros.
“O atendimento precisa contar com uma equipe interdisciplinar, formada por profissionais como fisioterapeuta, fonoaudiólogo, psicólogo e equitador. Essa equipe é fundamental para que o centro possa oferecer o atendimento”, explica.
Em Mato Grosso, a parceria alcança 36 municípios e 48 centros distribuídos pelas regionais do Senar-MT.
O acompanhamento das unidades também ocorre periodicamente. As equipes realizam visitas trimestrais para verificar aspectos relacionados ao atendimento e aos animais utilizados nas atividades.
“Nós somos os olhos do centro de equoterapia. Fazemos um acompanhamento trimestral, inclusive em relação ao atendimento e ao animal”, explica Rodrigo.
Para o supervisor, os relatos das famílias ajudam a demonstrar os efeitos percebidos ao longo do tratamento.
Durante uma das visitas, uma mãe relatou que o filho, de sete anos, passou a apresentar avanços na fala depois de iniciar a equoterapia.
“Ele falava menos e começou a desenvolver a fala. Isso, para a gente, é muito gratificante”, relata.
A trajetória de Lucas e de sua família mostra como a busca por alternativas para enfrentar uma necessidade particular pode ultrapassar os limites de uma casa e alcançar outras famílias. Na Associação Nativo, a experiência de uma mãe se transformou em um projeto de inclusão que continua sendo ampliado por meio da terapia, do acolhimento e de novas atividades.





