SAFRA DE SOJA E MILHO NOS EUA TEM FORTE CONTRASTE, REVELA EXPEDIÇÃO DA APROSOJA MT

Comitiva percorreu 13 estados em dez dias e encontrou perdas severas em áreas das Dakotas, enquanto lavouras de alto potencial foram registradas no leste do Cinturão do Milho
DA REDAÇÃO | FOTO: APROSOJA MT
A quinta edição do América Clima e Mercado, expedição realizada pela Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja MT) para acompanhar de perto as condições das lavouras dos Estados Unidos, terminou em Ohio com um cenário marcado por fortes contrastes. Em cerca de dez dias, a comitiva percorreu 13 estados e identificou diferenças significativas no potencial produtivo entre as regiões visitadas.
O grupo foi formado pelo presidente da Aprosoja MT, Lucas Costa Beber, pelo produtor Lino Costa, do núcleo de Canarana, e pelo delegado coordenador do núcleo de Itanhangá, Ivam Franceschet.
De acordo com a avaliação realizada em campo, as maiores perdas foram observadas nas Dakotas e no norte de Minnesota. Já Wisconsin, Illinois, Indiana e Ohio apresentaram algumas das lavouras com melhor padrão produtivo durante o percurso.
CENÁRIO MUDA DE ESTADO PARA ESTADO
A viagem começou pelo Texas, onde poucas lavouras foram observadas no trajeto até Dallas. Parte das áreas de milho já estava colhida. Em Oklahoma, a comitiva encontrou áreas de soja semeadas após o trigo, cultura plantada em outubro que permanece dormente durante o inverno sob a neve e retoma o desenvolvimento na primavera.
No Kansas, praticamente todas as lavouras nesse sistema foram consideradas perdidas. No sul do estado, o produtor Jason Boyd relatou que 2025 e 2026 foram anos difíceis e estima colher aproximadamente 25 bushels por acre, abaixo da média histórica da propriedade.
Em Missouri, entretanto, o cenário mudou. A comitiva encontrou lavouras de milho e soja consideradas de excelente padrão.
No sudoeste de Iowa, o milho também apresentava boas condições, embora com sinais de perda de potencial. Já Nebraska chamou a atenção pela redução da diferença entre áreas irrigadas e de sequeiro. A região, que em 2023 apresentava contraste mais acentuado entre os dois sistemas, registrou neste ano espigas grandes e bem granadas.
Ainda assim, produtores de sequeiro ouvidos pela comitiva estimaram perdas entre 10% e 15% tanto na soja quanto no milho.
DAKOTAS CONCENTRAM AS MAIORES PERDAS
A partir de Dakota do Sul, o potencial produtivo começou a cair. No sul e no centro do estado, foram encontradas lavouras consideradas relativamente fracas, com produtores estimando perdas entre 5% e 10%.
O cenário mais preocupante foi observado em Dakota do Norte. O estado foi o nono maior produtor de soja e o oitavo maior produtor de milho dos Estados Unidos em 2025.
Próximo a Forman, a comitiva acompanhou a primeira colheita de soja da expedição, na Arlen Hanson Farm. O produtor Brandt informou que a propriedade havia alcançado 45 bushels por acre no ano passado, equivalente a 50,4 sacas por hectare, mas a expectativa para esta safra é de aproximadamente 35 bushels por acre, ou 39,2 sacas por hectare. A redução representa cerca de 22%.
Ao longo do estado, foram encontradas plantas de soja com porte reduzido, falhas no enchimento do terço superior, grãos pequenos e vagens mal preenchidas. No milho, havia sinais de maturação antecipada.
Segundo os relatos colhidos pela expedição, alguns produtores estimam perdas superiores a 10%, podendo chegar a 50% em determinadas áreas. No norte de Dakota do Norte, a quebra da soja pode alcançar 30%.
Na região de Breckenridge, na divisa com Minnesota, a comitiva acompanhou o trabalho do brasileiro Paulo Zorzanello. Na propriedade visitada, a última chuva significativa havia ocorrido em 4 de julho.
A soja, que historicamente alcança aproximadamente 50 sacas por hectare na propriedade, tem expectativa de produtividade entre 22 e 28 sacas por hectare. No milho, que pode atingir cerca de 200 sacas por hectare em anos favoráveis, a estimativa atual caiu para uma faixa entre 126 e 146 sacas por hectare.
A percepção registrada em campo pela comitiva em Dakota do Norte foi mais negativa do que a projeção do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), principalmente em relação à soja. O órgão estima produtividade de 38,1 sacas por hectare no estado, praticamente estável diante das 38,7 sacas por hectare registradas em 2025.
MINNESOTA APRESENTA MELHORA EM DIREÇÃO AO SUL
No norte de Minnesota, próximo a Fargo, os relatos de perdas foram semelhantes aos encontrados em Dakota do Norte.
O cenário, porém, mudou conforme a comitiva avançou para o sul. Próximo a Montevideo, foram observados milho uniforme e saudável e soja com excelente desenvolvimento vegetativo e boa carga de vagens. A presença de fumagina, no entanto, chamou atenção.
Em Worthington, perto da divisa com Iowa, o produtor Kevin relatou pouca chuva durante o período de enchimento dos grãos e estima colher pelo menos 10% menos milho em relação ao ano anterior.
IOWA MOSTRA CONTRASTES EM CURTAS DISTÂNCIAS
Em Iowa, maior produtor de milho e segundo maior produtor de soja dos Estados Unidos em 2025, a variabilidade da safra ficou especialmente evidente.
No oeste do estado, no Vale do Missouri, próximo a Sioux City, uma lavoura de milho apresentou potencial inferior a 120 sacas por hectare. A área tinha rachaduras no solo e espigas com a chamada “chupeta”, termo utilizado para descrever o enchimento incompleto dos grãos na ponta da espiga.
A apenas 10 quilômetros dali, outra lavoura apresentava potencial superior a 200 sacas por hectare, embora também mostrasse sinais de estresse hídrico. Um produtor da região estima colher aproximadamente 15% menos milho.
Em direção ao centro de Iowa, as condições melhoraram. Em Carroll, uma lavoura de soja pronta para a colheita, com parte da área já colhida, apresentava potencial superior a 70 sacas por hectare e poderia se aproximar de 80 sacas.
Nas regiões de Beaver e Boone, um produtor relatou áreas de milho com potencial próximo a 250 bushels por acre, equivalentes a cerca de 262 sacas por hectare. Segundo ele, o resultado está relacionado às boas chuvas e ao manejo realizado na propriedade, incluindo aplicações de fungicidas.
Mesmo nas áreas com espigas maiores, entretanto, a chamada “chupeta” voltou a ser observada.
O USDA projeta produtividade de 229,1 sacas por hectare para o milho e 71,7 sacas por hectare para a soja em Iowa. Na avaliação da comitiva, mesmo as áreas consideradas boas não apresentavam o mesmo tamanho de espiga e a uniformidade observados em 2025.
LESTE DO CINTURÃO DO MILHO APRESENTA LAVOURAS DE ALTO POTENCIAL
Wisconsin foi uma das principais surpresas da expedição. Próximo a Barneveld, a oeste de Madison, o milho foi estimado em aproximadamente 230 sacas por hectare e a soja em cerca de 65 sacas por hectare. As lavouras apresentavam bom enchimento de vagens e grãos pesados.
Lucas Costa Beber, que esteve no estado em 2024 e havia encontrado forte pressão de mosca-branca, destacou que o problema não apareceu com a mesma intensidade nesta temporada. O manejo de plantas daninhas e doenças também foi considerado adequado.
Em Illinois, maior produtor de soja e segundo maior produtor de milho dos Estados Unidos em 2025, a comitiva encontrou um dos padrões mais homogêneos de toda a viagem.
Apesar disso, a realidade dentro dos talhões apresentou diferenças. No norte do estado, algumas lavouras demonstravam menor desenvolvimento vegetativo. No centro, soja e milho apresentavam boas condições, mas uma cooperativa local estimou perdas entre 5% e 10%.
Em Rockford e Washburn, lavouras de soja com aparência de alto potencial apresentaram falhas no enchimento de vagens. Em Washburn, também foram identificados ataques de lagartas e doenças fúngicas.
Na região de Alvin, no leste de Illinois, próximo a Danville, a propriedade de Charlie Rademaker recebeu aproximadamente 457 milímetros de chuva em apenas um mês. O excesso provocou alagamentos e perda de áreas, seguido por um período de falta de água durante o enchimento dos grãos.
O produtor estima que a produtividade da soja recue de 81,8 para aproximadamente 65 sacas por hectare. No milho, a expectativa é de queda de uma faixa entre 256 e 262 sacas por hectare para cerca de 199 sacas por hectare.
Para Illinois, o USDA projeta produtividade de 74 sacas por hectare para a soja e 218,6 sacas por hectare para o milho.
Em Indiana, próximo a Kokomo, a comitiva acompanhou a colheita da soja na propriedade de Stan Downing. Segundo o produtor, a média ficou próxima de 80 bushels por acre, equivalente a aproximadamente 89,7 sacas por hectare.
O resultado está acima da projeção do USDA para o estado, de 70,6 sacas por hectare. A lavoura visitada apresentava uniformidade e não tinha o mesmo nível de falhas no enchimento de vagens observado em outras regiões.
OHIO ENCERRA EXPEDIÇÃO COM EXCESSO DE CHUVAS
No caminho até Ohio, as lavouras de soja e milho estavam mais atrasadas e ainda não havia novas áreas entrando em colheita.
Em Marysville, uma lavoura de soja que chamava atenção pela aparência vista da rodovia revelou problemas quando observada de perto. Foram identificadas perdas de vagens na parte inferior das plantas, desfolha, mofo-branco e cancro da haste. O potencial produtivo foi estimado em aproximadamente 65 sacas por hectare.
O percurso terminou próximo a Columbus, com o acompanhamento do brasileiro Eduardo Scabeni, que trabalha em uma fazenda de aproximadamente 10,5 mil acres, localizada a cerca de 30 quilômetros da cidade.
Na região, diferentemente de grande parte dos estados visitados, as perdas foram provocadas principalmente pelo excesso de água.
Entre o final de abril e o início de maio, temperaturas negativas surpreenderam os produtores, situação considerada rara para a região. Na sequência, o excesso de chuvas provocou a morte de plantas de milho em pontos onde houve acúmulo de água.
Mesmo diante desses problemas, a comitiva encontrou áreas de milho com potencial superior a 250 bushels por acre, equivalentes a aproximadamente 261,5 sacas por hectare. O número supera a média projetada pelo USDA para Ohio, de 202,9 sacas por hectare.
Segundo Eduardo Scabeni, o investimento em manejo com fungicidas ainda não é uma prática comum entre os produtores da região.
DOENÇAS TAMBÉM INFLUENCIAM O POTENCIAL PRODUTIVO
No balanço da expedição, as lavouras de Illinois, Ohio, Indiana e parte de Minnesota estavam mais atrasadas em relação às demais regiões visitadas. Em Illinois, a colheita do milho já começava.
Ao longo dos 13 estados percorridos, a comitiva também identificou fatores que vão além das condições climáticas. Em diversas áreas, o manejo menos rigoroso de doenças foliares foi apontado como um elemento que pode reduzir a produtividade.
Segundo os integrantes da expedição, o controle fitossanitário observado em algumas propriedades não segue o mesmo nível de eficiência buscado por produtores brasileiros.
“Visualmente, as lavouras do Meio-Oeste americano estão boas, mas ainda precisamos ver se os grãos vão pesar. O relatório oficial mostra a média, e o nosso objetivo foi justamente entender o que existe por trás dela. Entramos nas lavouras, conversamos com quem produz e confrontamos as projeções com o que encontramos no campo, para levar ao produtor brasileiro uma leitura real da safra americana”, afirmou o presidente da Aprosoja MT, Lucas Costa Beber.
A expedição América Clima e Mercado encerrou, assim, uma jornada de aproximadamente dez dias pelos Estados Unidos, reunindo informações diretamente das propriedades rurais para comparar as projeções oficiais com as condições efetivamente encontradas nas lavouras.



