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EX-PREFEITO DE PONTES E LACERDA TEM MAIS DE R$ 300 MIL APREENDIDOS EM CASA DURANTE OPERAÇÃO DO NACO

Candidato a deputado estadual, Alcino Barcelos afirma que dinheiro é lícito e estava guardado em um quarto; investigação apura contratos milionários, movimentações financeiras e compra de fazenda por 100 cabeças de gado

DA REDAÇÃO | FOTO: REPRODUÇÃO

Mais de R$ 300 mil em dinheiro vivo foram apreendidos na residência do ex-prefeito de Pontes e Lacerda e candidato a deputado estadual Alcino Pereira Barcelos (PL), durante uma operação do Núcleo de Ações de Competência Originária (Naco), do Ministério Público de Mato Grosso (MPMT), realizada na sexta-feira (25).

A ação faz parte de uma investigação que apura suspeitas de fraude em licitações, lavagem de dinheiro e associação criminosa envolvendo contratos firmados pela Prefeitura de Pontes e Lacerda entre 2017 e 2024, período em que Alcino esteve à frente do município.

Durante as buscas, os investigadores encontraram maços de dinheiro em diferentes pontos da residência. Parte das cédulas estava dentro de uma caixa de Bíblia, enquanto outra quantidade foi localizada entre objetos existentes em um dos quartos do imóvel.

Imagens registradas durante o cumprimento dos mandados mostram diversas cédulas, incluindo notas de R$ 200, R$ 100 e R$ 50. O valor divulgado inicialmente sofreu alterações ao longo da operação, em razão da contagem do dinheiro. As primeiras informações apontavam cerca de R$ 280 mil, mas levantamentos posteriores indicaram aproximadamente R$ 300 mil e, posteriormente, uma quantia superior a esse valor.

Além do dinheiro, celulares, computadores, documentos e outros equipamentos eletrônicos foram recolhidos. O aparelho celular de Alcino também foi apreendido e deverá passar por análise dentro da investigação.

Uma arma de fogo foi encontrada em um endereço relacionado ao ex-prefeito. Alcino afirmou que se trata de uma garrucha calibre 28 que pertenceria ao pai e teria sido mantida como uma espécie de relíquia familiar, sem munição. A informação deverá ser confrontada pelos investigadores com os registros e demais elementos obtidos durante a operação.

EX-PREFEITO DIZ QUE DINHEIRO É LÍCITO

Após a operação, Alcino Barcelos afirmou que o dinheiro encontrado na residência é de origem lícita e contestou a interpretação de que os valores estariam escondidos.

Segundo o ex-prefeito, as cédulas estavam guardadas no quarto e, na avaliação dele, não haveria sentido em manter os recursos dentro da própria residência caso fossem provenientes de atividades ilegais.

Alcino também criticou a proximidade da operação com o período eleitoral. Candidato a deputado estadual, ele classificou a ação como política e questionou por que os mandados não teriam sido cumpridos anteriormente, alegando que a realização das buscas a poucos dias da eleição reduz seu tempo para apresentar esclarecimentos.

As declarações representam a versão do investigado. A operação, por sua vez, foi autorizada judicialmente e integra uma investigação conduzida pelo Naco.

A apreensão do dinheiro não estabelece, por si só, que os valores tenham origem criminosa. Caberá à investigação analisar a procedência das quantias e verificar se existe relação entre o dinheiro encontrado e os fatos apurados.

CONTRATOS DE R$ 5,7 MILHÕES ENTRAM NA MIRA

Um dos principais eixos da investigação está relacionado aos contratos firmados entre a Prefeitura de Pontes e Lacerda e a empresa Concretubos Pré-Moldados Ltda.

De acordo com os elementos reunidos no procedimento, foram identificados sete instrumentos contratuais envolvendo o município e a empresa. Cinco deles foram celebrados entre 2022 e 2023 e somaram aproximadamente R$ 4,7 milhões.

Com a atualização monetária considerada na investigação, o montante chega a cerca de R$ 5,78 milhões.

O Naco apura se houve favorecimento da empresa nas contratações públicas e busca esclarecer possíveis relações familiares, comerciais e funcionais entre agentes públicos e pessoas ligadas aos negócios.

Relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) também apontaram movimentações financeiras consideradas suspeitas e passaram a integrar o conjunto de informações analisadas pelos investigadores.

FAZENDA TERIA SIDO NEGOCIADA POR 100 CABEÇAS DE GADO

Outro ponto da investigação envolve a aquisição da Estância Rancho Fundo I por Alcino Barcelos.

Conforme os elementos reunidos no procedimento, a negociação da propriedade rural teria sido estabelecida mediante o pagamento de 100 cabeças de gado da raça Nelore.

O que chamou a atenção dos investigadores foi a ausência, segundo os dados analisados no caso, de documentação oficial de movimentação do rebanho que fosse compatível com a negociação.

A apuração busca esclarecer se a transação ocorreu efetivamente nos termos declarados e se houve utilização de recursos de eventual origem ilícita na aquisição da propriedade.

A questão ainda depende da análise de documentos, registros financeiros, informações patrimoniais e demais elementos reunidos durante a investigação. Até o momento, não há decisão judicial definitiva estabelecendo irregularidade na compra da fazenda ou responsabilidade criminal de Alcino pelos fatos investigados.

PATRIMÔNIO DECLARADO PASSA DE R$ 19 MILHÕES

A situação patrimonial do ex-prefeito também integra o contexto analisado pelos investigadores.

Na declaração apresentada à Justiça Eleitoral para a candidatura em 2026, Alcino Barcelos informou possuir patrimônio total de R$ 19,23 milhões.

Entre os bens declarados estão propriedades rurais e outros imóveis. Um dos patrimônios informados é uma propriedade rural localizada em Vila Bela da Santíssima Trindade, avaliada em R$ 8 milhões.

Os dados patrimoniais deverão ser confrontados com informações bancárias, fiscais e financeiras obtidas no decorrer da investigação.

12 MANDADOS FORAM CUMPRIDOS

Ao todo, foram cumpridas 12 ordens judiciais contra agentes públicos e pessoas ligadas à iniciativa privada. As medidas incluíram buscas e apreensões, acesso a dados telemáticos e afastamento dos sigilos bancário, fiscal e financeiro, além da indisponibilidade de bens, direitos e valores.

A operação contou com a participação da Polícia Civil e da Controladoria-Geral do Estado (CGE).

O delegado Marcel Gomes de Oliveira, integrante do grupo operacional do Naco, confirmou a apreensão do celular de Alcino. O equipamento, assim como computadores, documentos e demais aparelhos recolhidos, deverá ser submetido à análise.

A expectativa é que os investigadores cruzem os dados obtidos durante as buscas com informações bancárias, fiscais, financeiras, contratuais e relatórios do Coaf já existentes no procedimento.

Com o cumprimento das medidas, a investigação entra em uma nova etapa. Entre os pontos que deverão ser aprofundados estão a origem do dinheiro encontrado na residência, eventual conexão das quantias com os contratos públicos investigados, a movimentação financeira dos envolvidos e a compatibilidade entre o patrimônio declarado e os dados obtidos durante a apuração.

Alcino Barcelos não foi condenado pelos fatos investigados. As suspeitas ainda estão em fase de apuração, e o ex-prefeito poderá apresentar documentos e esclarecimentos sobre a origem dos valores, a arma encontrada, as movimentações financeiras, a negociação da propriedade rural e os demais elementos recolhidos durante a operação.

O Povo MT segue acompanhando o caso e as próximas etapas da investigação.

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