
Produtos que conquistam as redes sociais podem impulsionar vendas, mas planejamento, custos e perfil do cliente devem ser avaliados antes de entrar no cardápio
DA REDAÇÃO | FOTO: REPRODUÇÃO
Um produto que viraliza nas redes sociais pode conquistar milhares de consumidores em poucos dias e desaparecer com a mesma velocidade. Para pequenos negócios do setor de alimentação, acompanhar essas tendências pode representar uma oportunidade para atrair novos clientes e experimentar produtos diferentes. No entanto, antes de transformar uma moda da internet em item permanente do cardápio, especialistas recomendam avaliar a procura, calcular os custos e verificar se a empresa tem estrutura para manter a produção.
A empreendedora Ana Paula, de Sinop, vivencia na prática os desafios de transformar tendências em oportunidades. Mãe atípica, ela deixou a profissão de contadora há cerca de um ano para se dedicar aos cuidados com o filho e encontrou na produção de alimentos uma alternativa para gerar renda.
Atualmente, trabalha com bolos, tortas, doces para festas, sanduíches naturais e outros produtos, comercializados principalmente para clientes que conheceu ao longo da rotina.
Com a popularização do Morango do Amor e, mais recentemente, do Morango Cravejado, Ana Paula decidiu testar as receitas. A experiência mostrou, porém, que o sucesso de um produto nas redes sociais não significa necessariamente que ele terá o mesmo desempenho no mercado local.
“Você vê uma coisa na internet, não é totalmente aquilo que eles falam. O marketing é bonito, é tudo lindo, mas vai testando para ver”, relata.
Para chegar aos produtos que hoje oferece, a empreendedora precisou adaptar receitas e observar a aceitação dos consumidores. Em outra tentativa, com o chamado X-bolo, o resultado foi diferente. O produto não alcançou a mesma procura e apresentou um custo de produção elevado, enquanto os clientes não demonstraram disposição para pagar o valor necessário para manter a margem do negócio.
DA REDE SOCIAL PARA A PLANILHA
De acordo com a gestora estadual de Bebidas e Alimentos do Sebrae/MT, Beatriz Jardim, a criatividade é importante para identificar oportunidades, mas precisa estar acompanhada de planejamento para que uma tendência se transforme em um produto viável.
“Isso envolve testar a receita, calcular o preço, preparar a equipe e definir os canais de venda”, explica.
A especialista alerta que o alcance de uma publicação ou a quantidade de vídeos sobre determinado produto não significa que a novidade será rentável para todos os empreendedores. Antes de lançar uma receita, é necessário colocar na conta ingredientes, embalagens, mão de obra e taxas cobradas pelos canais de comercialização.
Também é importante entender quanto o consumidor está disposto a pagar e qual valor efetivamente sobra de cada venda depois de descontados os custos.
Por isso, a recomendação é começar com testes em pequena escala.
“Assim é possível verificar a aceitação do produto, sua qualidade, o preço de venda e o impacto na rotina de produção”, afirma Beatriz.
No caso do Morango Cravejado, Ana Paula também precisou lidar com a oscilação no preço da principal matéria-prima. Segundo ela, uma caixa contendo quatro bandejas de morangos chegou a custar R$ 80. Em outro momento, durante uma promoção, ela havia conseguido comprar duas caixas por R$ 50.
A diferença mostra como uma tendência pode aumentar a procura por determinado ingrediente e, consequentemente, elevar os custos para quem decide aproveitar o momento.
NEM TODA MODA PRECISA ENTRAR NO CARDÁPIO
Acompanhar o comportamento dos consumidores, observar os pedidos dos próprios clientes e monitorar o que aparece nas redes sociais e nos aplicativos de entrega são algumas das formas de identificar tendências.
Isso não significa, porém, que todo produto viral precise ser incorporado ao negócio.
Segundo Beatriz, a decisão deve considerar o perfil do público, a capacidade de manter o padrão de qualidade e a margem de lucro. Em determinadas situações, deixar uma tendência passar também pode fazer parte da estratégia empresarial.
“Deixar uma moda passar também é uma decisão estratégica”, destaca.
A experiência também fez Ana Paula perceber que é necessário selecionar quais novidades realmente fazem sentido para sua empresa.
“Não pode perder o timing, mas não adianta pegar tudo, você tem que analisar e evoluir”, afirma.
DIVERSIFICAÇÃO PODE REDUZIR DEPENDÊNCIA DE PRODUTO VIRAL
Embora um produto em alta possa aumentar as vendas em determinado período, depender exclusivamente de uma tendência pode representar um risco para pequenos negócios.
A orientação é aproveitar, sempre que possível, ingredientes, equipamentos e conhecimentos que o empreendedor já domina. Dessa maneira, uma novidade pode ser incorporada à operação sem exigir investimentos elevados ou mudanças bruscas na estrutura da empresa.
Ana Paula segue justamente esse caminho ao trabalhar com diferentes tipos de bolos, doces, tortas e sanduíches, mantendo um portfólio diversificado mesmo enquanto testa novidades que surgem nas redes sociais.
Para avaliar se uma tendência realmente pode se transformar em oportunidade, Beatriz recomenda conversar com os clientes, produzir pequenas quantidades, calcular detalhadamente os custos e estabelecer um preço que preserve a margem de lucro.
Depois do lançamento, também é necessário acompanhar os resultados: quantas pessoas demonstraram interesse, quantas efetivamente compraram, como avaliaram o produto e se a empresa consegue atender à demanda sem comprometer os demais itens do cardápio.
“Quem transforma a tendência em oportunidade entende o interesse do seu público, adapta o produto à identidade do negócio, entrega qualidade, acompanha os números e sabe a hora de mudar”, resume Beatriz.
Para os pequenos empreendedores, a principal lição é que viralização pode abrir uma porta, mas é o planejamento que determina se aquela oportunidade será capaz de permanecer no negócio depois que a febre das redes sociais passar.
O Povo MT segue acompanhando iniciativas e orientações que contribuem para o fortalecimento dos pequenos negócios e do empreendedorismo em Mato Grosso.



