
Pesquisa da Fundação Rio Verde mostra impactos do percevejo-marrom e do percevejo-barriga-verde sobre a formação, qualidade e peso dos grãos
DA REDAÇÃO | FOTO: FUNDAÇÃO RIO VERDE
O avanço dos percevejos nas lavouras de soja e milho tem se tornado uma preocupação crescente para os produtores rurais de Mato Grosso. Pesquisa realizada pela Fundação Rio Verde, em Lucas do Rio Verde, mostra que os danos provocados pelos insetos podem comprometer a formação dos grãos, reduzir o peso da produção e ainda favorecer a presença da praga na cultura seguinte.
O problema está relacionado, entre outros fatores, ao modelo de produção predominante no Estado, marcado pelo cultivo da soja na primeira safra e do milho na sequência. Com a sucessão de culturas e as condições de clima quente, os insetos encontram alimento disponível durante diferentes períodos do ano, favorecendo sua permanência nas áreas agrícolas.
Entre as principais espécies identificadas estão o percevejo-marrom (Euschistus heros) e o percevejo-barriga-verde (Diceraeus melacanthus).
Para avaliar os prejuízos provocados pelas pragas, equipes dos Laboratórios de Sementes e de Entomologia da Fundação Rio Verde, sob coordenação das pesquisadoras Maria Luiza e Jéssica Gorri, realizaram um experimento durante a safra 2025/2026.
EXPERIMENTO SIMULOU ATAQUE DOS INSETOS
O estudo foi conduzido com plantas de soja isoladas em gaiolas de proteção e divididas em três grupos. Um deles permaneceu livre da presença de percevejos e serviu como controle. Os outros dois foram submetidos ao ataque do percevejo-marrom e do percevejo-barriga-verde.
Após o período de acompanhamento, as plantas e sementes passaram por avaliações laboratoriais. Os resultados demonstraram que as duas espécies provocam danos à cultura, embora apresentem diferenças na intensidade e na forma de atuação.
O percevejo-marrom apresentou os maiores impactos sobre a soja. O inseto ataca regiões importantes para o desenvolvimento da semente, interferindo diretamente na formação dos grãos.
Em uma das avaliações realizadas durante a pesquisa, 20% das sementes analisadas foram consideradas inviáveis em razão da intensidade das lesões provocadas pelos ataques.
Além da perda de sementes, as plantas submetidas ao ataque do percevejo-marrom apresentaram sintomas como retenção foliar, abortamento de vagens e falhas na formação dos grãos. Esses efeitos podem resultar em redução significativa do peso produzido na colheita.
PERCEVEJO-BARRIGA-VERDE EXIGE ATENÇÃO TAMBÉM NO MILHO
O percevejo-barriga-verde apresentou impacto menor sobre o peso dos grãos de soja quando comparado ao percevejo-marrom, mas representa uma preocupação adicional devido à sua capacidade de permanecer no ambiente e atingir a cultura cultivada posteriormente.
Na sucessão soja-milho, o inseto pode continuar presente na área após a colheita da oleaginosa e atingir o milho-safrinha, principalmente nas fases iniciais de desenvolvimento da cultura.
Segundo os resultados da pesquisa, os danos provocados pelos percevejos ocorrem tanto de maneira direta quanto indireta.
O dano direto acontece durante a alimentação do inseto, que suga a seiva e pode provocar alterações fisiológicas na planta, prejudicando o desenvolvimento dos grãos.
Já o dano indireto está relacionado às lesões provocadas pelas picadas. Os ferimentos podem facilitar a entrada de agentes causadores de doenças, aumentando os problemas enfrentados pela planta.
MANEJO PRECISA CONSIDERAR A SUCESSÃO DE CULTURAS
Os resultados reforçam a necessidade de que o controle dos percevejos seja planejado considerando todo o sistema produtivo, e não apenas uma cultura de forma isolada.
Na soja, o período reprodutivo exige atenção especial devido aos impactos que os insetos podem provocar na formação das sementes e no rendimento da lavoura. Ao mesmo tempo, o manejo também precisa considerar a redução da população da praga antes da implantação do milho-safrinha.
A presença contínua de alimento no campo, proporcionada pela sucessão de culturas, pode favorecer a permanência dos percevejos durante diferentes etapas do calendário agrícola.
Para a Fundação Rio Verde, compreender o comportamento das espécies e os danos provocados em cada cultura é importante para definir estratégias de manejo mais eficientes e reduzir perdas de produtividade.
A pesquisa também evidencia que o problema não termina necessariamente com a colheita da soja. A população de percevejos presente na lavoura pode representar uma ameaça para o milho que será implantado posteriormente, tornando o monitoramento e o planejamento do controle fundamentais para a proteção das duas culturas.
Em um dos principais polos produtores de grãos do país, os resultados reforçam a importância do acompanhamento constante das lavouras e da adoção de estratégias de manejo adequadas às diferentes fases do sistema soja-milho.
O Povo MT segue acompanhando as pesquisas e os principais desafios enfrentados pelo agronegócio de Mato Grosso.



