MATO GROSSO CRESCE, MAS QUEM ESTÁ PREPARADO PARA ADMINISTRAR O FUTURO DO ESTADO?
Estado que avança em população, empresas e empregos enfrenta um desafio menos visível: transformar crescimento econômico em gestão eficiente, profissional e capaz de produzir resultados para empresas, governos e cidadãos

Mato Grosso cresce, abre empresas, gera empregos, atrai investimentos e transforma rapidamente a realidade de seus municípios. Em meio aos grandes números da economia estadual, porém, existe uma engrenagem menos visível e decisiva para sustentar esse processo: a gestão.
Quem planeja? Quem organiza pessoas e recursos? Quem acompanha resultados, controla custos, estrutura processos e transforma decisões em ações capazes de produzir resultados?
Essas perguntas colocam a Administração no centro de uma discussão que ultrapassa os escritórios e departamentos empresariais. Em um Estado que chegou a uma população estimada em 3,95 milhões de habitantes em 2026, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), e que mantém um mercado de trabalho aquecido, a capacidade de administrar o próprio crescimento passa a ser também uma questão de desenvolvimento.
A partir de dados do Conselho Regional de Administração de Mato Grosso (CRA-MT), pesquisas da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), informações da Junta Comercial de Mato Grosso (Jucemat), indicadores do IBGE e números do mercado de trabalho, esta reportagem investiga o papel da gestão diante das transformações econômicas e sociais do Estado.

A pergunta central é simples, mas ainda sem uma resposta definitiva: Mato Grosso está crescendo mais rápido do que sua capacidade de gestão?
UM ESTADO QUE CRESCE E PRECISA ADMINISTRAR O PRÓPRIO CRESCIMENTO
Os números ajudam a dimensionar o tamanho do desafio.
O IBGE estima que Mato Grosso tenha 3.950.330 habitantes em 2026. No Censo 2022, eram 3.658.649 moradores. O Estado possui 903,2 mil quilômetros quadrados e densidade demográfica de apenas 4,05 habitantes por quilômetro quadrado.

O rendimento nominal mensal domiciliar per capita chegou a R$ 2.335 em 2025. Na estrutura das contas públicas, as receitas brutas realizadas alcançaram cerca de R$ 68 bilhões, enquanto as despesas brutas empenhadas ficaram em aproximadamente R$ 42,6 bilhões.
Cada número representa uma parte de uma engrenagem muito maior.
Mais pessoas significam maior demanda por serviços. Mais empresas exigem planejamento, mão de obra e organização. Mais empregos representam novas relações de trabalho. E uma economia maior exige capacidade para administrar recursos cada vez mais complexos.
É nesse cenário que a Administração deixa de ser apenas uma atividade interna das organizações e passa a ser elemento estratégico do desenvolvimento.
MAIS DE 300 MIL EMPRESAS NO ESTADO
A Junta Comercial de Mato Grosso registrou 318.955 empresas ativas no segundo quadrimestre de 2025.
Serviços representam a maior parcela desse universo, seguidos pelo comércio e pela indústria. O Estado também contabilizava aproximadamente 293,5 mil Microempreendedores Individuais (MEIs)ativos.
Cuiabá concentra a maior quantidade de empresas, mas municípios como Várzea Grande, Sinop, Rondonópolis e Sorriso também aparecem entre os principais polos empresariais.
O presidente da Jucemat, Manoel Lourenço de Amorim Silva, destacou que os dados produzidos pela Junta podem servir de instrumento para decisões públicas e privadas.

“Ao disponibilizar esta análise, a Jucemat reforça o compromisso em promover a transparência, fomentar o ambiente de negócios e continuar contribuindo para a construção de políticas públicas mais eficazes.”
A declaração revela uma mudança importante: dados empresariais deixaram de ser apenas registros burocráticos e passaram a funcionar como instrumentos para compreender o território e orientar decisões.
Para o administrador, isso representa um ambiente no qual informação, planejamento e capacidade de interpretação tornam-se cada vez mais importantes.
O MAPA INVISÍVEL DA ADMINISTRAÇÃO
É nesse ponto que entra uma das principais ferramentas utilizadas pelo CRA-MT.

O Conselho desenvolveu uma plataforma de Business Intelligence (BI) que reúne informações sobre profissionais registrados, fiscalização e distribuição territorial da categoria.
A ferramenta permite visualizar onde estão os profissionais de Administração em Mato Grosso e separar os registros conforme diferentes categorias profissionais.
O recurso cria a possibilidade de transformar os registros do Conselho em uma espécie de mapa da gestão no Estado.
A distribuição, porém, precisa ser analisada em conjunto com outros indicadores.
Onde estão os administradores?
Onde estão as empresas?
Onde a população cresce mais rapidamente?
Quais municípios concentram empregos?
Onde surgem novos negócios?
E onde existe uma possível distância entre a velocidade da expansão econômica e a disponibilidade de profissionais preparados para acompanhar esse processo?
São perguntas que os dados podem ajudar a responder.
O próprio CRA-MT destaca entre suas atribuições a fiscalização e orientação do exercício profissional, além da valorização da Administração e do combate ao exercício ilegal da profissão.
SINOP: QUANDO O CRESCIMENTO EMPRESARIAL ACELERA
Sinop oferece um exemplo concreto da velocidade de transformação do interior.
O município registrou 1.559 novas empresas em apenas 45 dias de 2026. Em 2025, foram contabilizados 8.042 novos negócios, enquanto 3.866 empresas encerraram suas atividades no mesmo período.
O município chegou a aproximadamente 36,5 mil empresas ativas.
Os números não permitem concluir que os fechamentos tenham ocorrido por problemas de gestão. Mas revelam um ambiente empresarial dinâmico, no qual abrir um negócio é apenas o primeiro passo.
A coordenadora do Sebrae em Sinop, Leandra Franco, resumiu a importância do acompanhamento do empreendedor:
“Trabalhamos com orientação desde a ideia do negócio, passando pela formalização, a gestão financeira, planejamento, capacitação e acompanhamento contínuo do empreendedor.”
A fala ajuda a mostrar que gestão não começa quando uma empresa já está consolidada.
Ela começa antes da abertura, passa pela organização financeira, pelo planejamento, pela formação da equipe e continua durante toda a trajetória do negócio.
O ADMINISTRADOR QUE ESTÁ LONGE DA CAPITAL
A expansão econômica também mudou o lugar onde a Administração acontece.
Profissionais registrados no CRA-MT atuam em diferentes municípios do Estado, acompanhando empresas, cooperativas, organizações privadas e estruturas públicas.
No interior, a realidade pode ser diferente daquela encontrada na capital. Distâncias maiores, crescimento urbano acelerado, expansão do agronegócio, necessidade de mão de obra especializada e novas cadeias de serviços criam desafios próprios.
Um administrador que trabalha em Nova Mutum, por exemplo, está inserido em uma região profundamente ligada ao agronegócio e à expansão empresarial.
Esse personagem representa uma dimensão importante da reportagem: a gestão não está concentrada em Cuiabá.
Ela acompanha a interiorização da economia.
QUANDO A GESTÃO CHEGA À PREFEITURA
Se a Administração influencia a sobrevivência e o crescimento de uma empresa, no setor público suas consequências podem chegar diretamente ao cidadão.
Cuiabá oferece um exemplo.
Em audiência pública sobre a saúde municipal, o prefeito Abilio Brunini falou sobre os desafios encontrados pela administração e apontou problemas relacionados à estrutura física e à organização de contratos.

“Não dá para resolver tudo em apenas um ano. São muitas unidades deterioradas, contratos desorganizados e uma estrutura inteira que precisava ser reconstruída.”
Segundo informações divulgadas pela Prefeitura, a administração municipal conduzia naquele momento diversas ações de recuperação de unidades e reorganização da rede de saúde.
A fala mostra como conceitos que parecem essencialmente administrativos contratos, planejamento, orçamento, manutenção e organização de processos, podem produzir efeitos concretos sobre a população.
Para quem está do outro lado do balcão, uma decisão administrativa pode significar uma unidade funcionando, um atendimento realizado ou um serviço que deixa de ser prestado.
A UFMT INVESTIGA A MATURIDADE DA GESTÃO PÚBLICA

A discussão sobre gestão pública também encontra respaldo na produção científica de Mato Grosso.
Pesquisa desenvolvida pelo professor Edson Rodrigues de Aro, do Departamento de Administração da UFMT, analisou a maturidade da gestão por resultados na administração pública municipal de Mato Grosso.
O estudo considerou agentes públicos envolvidos na implementação do planejamento estratégico e concluiu que instrumentos de gestão por resultados já são utilizados nos municípios analisados, mas ainda precisam ser aperfeiçoados.
A constatação é relevante porque mostra que o desafio não está apenas em criar planos, metas e indicadores.
É necessário fazer com que essas ferramentas sejam efetivamente utilizadas na tomada de decisões.
Planejar é uma etapa.
Acompanhar resultados é outra.
Corrigir aquilo que não funciona é uma terceira.
É nessa sequência que a gestão se transforma em resultado concreto.
LIDERANÇA, INOVAÇÃO E PESSOAS
Outro olhar acadêmico vem da professora Rosa Almeida Freitas Albuquerque, do curso de Administração da UFMT.
Em 2026, ela coordena o projeto de extensão “Gestão Pública em Movimento: Liderança, Inovação e Transformação nos Serviços Públicos”, iniciativa voltada à discussão de liderança, inovação e transformação na administração pública.
A proposta ajuda a ampliar o debate.
Administrar não significa apenas controlar números.
Envolve pessoas, liderança, comportamento organizacional, inovação e capacidade de adaptação.
Em um cenário marcado por inteligência artificial, digitalização e mudanças rápidas no mercado, a formação do administrador também precisa acompanhar novas demandas.
O MERCADO DE TRABALHO AQUECE E COBRA QUALIFICAÇÃO
O mercado de trabalho de Mato Grosso reforça essa necessidade.
No primeiro trimestre de 2026, o Estado registrou 22.106 novos empregos formais, levando o estoque de postos de trabalho com carteira assinada para 997.735 vínculos.
O setor de serviços liderou a geração de vagas, com 9.444 novos postos, seguido pela agropecuária, construção, indústria e comércio.
Em 2025, Mato Grosso já havia registrado mais de 31 mil novos empregos formais.
A taxa de desocupação também permaneceu em nível baixo. No primeiro trimestre de 2026, chegou a 3,1%, segundo dados divulgados a partir da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua).
O presidente da Fecomércio-MT, Wenceslau Júnior, destacou o papel dos setores de comércio e serviços nesse movimento:
“No conjunto, o quadro aponta para uma economia que está conseguindo transformar renda setorial em dinamismo econômico, sendo serviços e comércio agentes amplificadores desse ciclo.”
Em outro momento, ele afirmou:
“A empregabilidade mato-grossense, aliada ao papel estratégico do comércio e dos serviços, aponta para uma economia aquecida no estado.”
A expansão do mercado de trabalho, porém, traz uma segunda questão: a capacidade de encontrar profissionais qualificados para acompanhar as novas demandas.
A INDÚSTRIA TAMBÉM PROCURA PROFISSIONAIS
O desafio aparece de forma ainda mais evidente na indústria.
Levantamentos do Observatório Nacional da Indústria apontam que Mato Grosso deverá demandar 210 mil profissionais qualificados entre 2026 e 2027.
Desse total, aproximadamente 31 mil serão novos profissionais, enquanto outros 179 mil trabalhadores precisarão atualizar suas competências.
A diretora regional do Senai-MT, Fernanda Campos, resumiu o cenário:
“Mato Grosso está passando por um processo importante de crescimento e transformação da sua indústria, e esse movimento precisa ser acompanhado pela formação de profissionais.”
A qualificação, portanto, passa a fazer parte da própria estratégia de crescimento.
Não basta criar postos de trabalho.
É preciso preparar pessoas para ocupá-los.
SEM GESTÃO, O CRESCIMENTO PODE NÃO SE TRANSFORMAR EM DESENVOLVIMENTO
O presidente do CRA-MT, Hélio Tito Simões de Arruda, sintetizou o papel da profissão em uma frase:
“A administração está presente em todos os setores. Sem gestão, não há sucesso.”
A declaração ajuda a traduzir o eixo central desta reportagem.

A Administração está presente na empresa que precisa organizar seu caixa, no produtor que planeja sua operação, na cooperativa que administra milhares de associados, na indústria que precisa aumentar produtividade e na prefeitura que precisa transformar orçamento em serviço público.
O profissional pode não aparecer para o cidadão que recebe o produto, entra em um hospital ou utiliza um serviço.
Mas suas decisões podem estar presentes em cada etapa desse processo.
O MAPA QUE PODE REVELAR UMA NOVA FACE DE MATO GROSSO
A grande contribuição dos dados do CRA-MT está justamente na possibilidade de visualizar essa estrutura.
Ao cruzar a distribuição dos profissionais de Administração com dados sobre empresas, população, empregos e atividade econômica, surge uma nova possibilidade de leitura do Estado.
O objetivo não é afirmar que a quantidade de administradores determina, sozinha, o desenvolvimento de um município.
A realidade é muito mais complexa.
Mas a presença de profissionais preparados, aliada a planejamento, qualificação, tecnologia e capacidade de tomada de decisão, faz parte da estrutura necessária para que organizações públicas e privadas acompanhem mudanças econômicas cada vez mais rápidas.
Esse cruzamento também permite olhar para além da capital e compreender o papel desempenhado pelos profissionais que atuam nas cidades do interior.
MAIS DO QUE CRESCER, É PRECISO SABER ADMINISTRAR
Mato Grosso já demonstrou que tem força para crescer, atrair investimentos, abrir empresas, gerar empregos e ampliar sua população. O próximo desafio é transformar essa expansão em desenvolvimento sustentável, com planejamento, profissionais preparados, inovação e decisões capazes de fazer o crescimento chegar à ponta. Porque números podem revelar o tamanho de uma economia, mas é a qualidade da gestão que determina o quanto esse crescimento será capaz de mudar, de fato, a vida das pessoas.
No fim, a pergunta não é apenas quanto Mato Grosso ainda pode crescer, mas quem estará preparado para administrar tudo o que esse crescimento vai exigir. E é justamente nesse ponto que a Administração deixa de ser apenas uma profissão e passa a ser uma das engrenagens decisivas para o futuro do Estado.
O Povo MT segue acompanhando os movimentos que ajudam a explicar o presente e, principalmente, a construir o Mato Grosso que vem pela frente.

POR LUCIANA BUENO | FOTO: REPRODUÇÃO E ACERVO



