
Grupo terá 180 dias para estudar os desafios enfrentados pelos pacientes e propor políticas públicas; associação aponta dificuldades de acesso a procedimentos após a cirurgia bariátrica.
DA REDAÇÃO | FOTO: MARCOS LOPES/ALMT
A Assembleia Legislativa de Mato Grosso (ALMT) instalou, nesta quinta-feira (22), uma Câmara Setorial Temática (CST) para discutir a prevenção e o tratamento da obesidade no estado. A iniciativa, proposta pelo deputado estadual Eduardo Botelho (União Brasil), atende a uma solicitação da Associação Mato-grossense de Obesidade (AMO) e busca elaborar propostas para ampliar o atendimento e melhorar a qualidade de vida dos pacientes.
Instalado na Sala de Reuniões das Comissões “Deputado Oscar Soares”, o grupo foi criado por meio do Requerimento nº 532/2026 e constituído pelo Ato nº 0752/2026. A CST terá prazo de funcionamento de 180 dias, prorrogável por igual período, para analisar as dificuldades enfrentadas pelas pessoas com obesidade, avaliar os serviços oferecidos pela rede pública de saúde e apresentar sugestões de políticas públicas.
Um dos principais pontos levantados durante a reunião foi a dificuldade de acesso às cirurgias reparadoras, realizadas para retirar o excesso de pele após uma perda significativa de peso. A demanda é especialmente relevante para pacientes que passaram pela cirurgia bariátrica e precisam dar continuidade ao tratamento.
Presidente da CST e da AMO, Juvelina de Campos Nunes afirmou que Mato Grosso avançou na oferta de cirurgias bariátricas, mas ainda enfrenta uma lacuna no atendimento aos pacientes que necessitam de procedimentos reparadores.
Segundo dados apresentados por ela, o Hospital Metropolitano, em Várzea Grande, realizou cerca de cinco mil cirurgias bariátricas nos últimos dois anos. O volume reforça, na avaliação da representante, a necessidade de planejamento para atender à demanda por cirurgias reparadoras.
“Hoje temos vários hospitais que realizam a cirurgia bariátrica, mas existe uma lacuna muito grande no tratamento. A pessoa emagrece, passa por todo o processo de recuperação, mas o que ela vai fazer com o excesso de pele? Essa é uma parte muito dolorosa, que afeta a autoestima, os relacionamentos e a vida social. Precisamos que o poder público compreenda que a cirurgia reparadora também faz parte desse tratamento”, afirmou Juvelina.
Ela também relatou que, conforme levantamento realizado por ela em 2023, mais de cinco mil pacientes aguardavam por cirurgias reparadoras no Hospital Municipal de Cuiabá. A demora, segundo a presidente da associação, pode agravar o sofrimento emocional e contribuir para o isolamento social.
EXPERIÊNCIA PESSOAL REFORÇA A MOBILIZAÇÃO
A defesa de políticas públicas para ampliar o acesso aos procedimentos também está ligada à trajetória pessoal de Juvelina. Após chegar aos 165 quilos, ela passou por uma cirurgia bariátrica em 2004 e conseguiu reduzir significativamente o peso. Para realizar parte das cirurgias reparadoras, no entanto, precisou recorrer à rede privada e à Justiça.
“Eu tive a oportunidade de fazer as minhas cirurgias, mas não desisto dos meus associados que não têm essa condição. Precisamos trazer para o legislador a nossa dor, as nossas necessidades e dificuldades. Se não mostrarmos essa realidade, como vão saber que estamos sofrendo e que precisamos de políticas públicas?”, questionou.
A presidente defende que o poder público considere todas as etapas do tratamento, incluindo os procedimentos necessários após a perda de peso, para que os pacientes tenham condições de recuperar não apenas a saúde física, mas também o bem-estar e a convivência social.
PREVENÇÃO DESDE A INFÂNCIA
Além das cirurgias reparadoras, a Câmara Setorial deverá discutir medidas de prevenção à obesidade desde a infância, incentivo à alimentação saudável e ampliação das alternativas terapêuticas, com acompanhamento médico e uso de medicamentos quando houver indicação profissional.
Durante a instalação, o médico Hélio Marcelo Pesenti Sandrin, especialista em Cardiologia e Clínica Médica, ressaltou que a obesidade é uma doença crônica que exige atenção contínua e pode estar associada a problemas como diabetes, hipertensão e doenças cardiovasculares.
Para ele, o enfrentamento da doença precisa ir além de procedimentos cirúrgicos ou do uso de medicamentos para perda de peso. O diagnóstico precoce, a orientação profissional e as ações educativas também devem fazer parte da estratégia de atendimento.
“As canetinhas vieram para ajudar, mas não vão fazer milagres. Precisamos compreender que a obesidade é uma doença séria, que deve ser controlada. É fundamental trabalhar a prevenção e garantir que essas pessoas tenham acompanhamento adequado”, destacou Sandrin.
COMBATE AO PRECONCEITO E À EXCLUSÃO SOCIAL
A reunião também abordou os impactos do preconceito contra pessoas com obesidade. Integrante da CST, a procuradora municipal aposentada de Cuiabá Sônia Cristina Mangoni de Oliveira Lelis alertou que a discriminação e a pressão por padrões estéticos podem prejudicar a autoestima e limitar a participação social dos pacientes.
“Infelizmente, nossa sociedade ainda é muito gordofóbica. Muitas pessoas deixam de participar de atividades e de conviver socialmente porque não se sentem bem com a própria aparência. Precisamos lutar pelos direitos dessas pessoas e garantir que tenham acesso ao atendimento de que necessitam”, afirmou.
O médico Gunther Peres Pimenta, membro titular do Colégio Brasileiro de Cirurgiões e da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica, e o delegado Bruno Lima Barcellos, relator da CST, participaram de forma virtual e colocaram suas experiências profissionais à disposição dos trabalhos.
COMPOSIÇÃO DA CÂMARA SETORIAL
A CST é presidida por Juvelina de Campos Nunes, presidente da AMO. O relator é o delegado Bruno Lima Barcellos, enquanto a secretaria ficará sob responsabilidade de Silvana Aparecida Gadani de Arruda, vice-presidente da associação.
Também integram o grupo os médicos Gunther Peres Pimenta, Regis Vilela Leal, Tarsis Miyabara, Ismael Carvalho, Hélio Marcelo Pesenti Sandrin e Marcus Antônio Godoy, além da procuradora municipal aposentada Sônia Cristina Mangoni de Oliveira Lelis e do radialista e jornalista Antero Paes de Barros Neto.
Com prazo inicial de seis meses, os trabalhos deverão reunir informações e contribuições de profissionais, representantes de pacientes e demais participantes para embasar propostas voltadas à prevenção, ao tratamento e à assistência às pessoas com obesidade em Mato Grosso.
O Povo MT segue acompanhando as discussões sobre políticas públicas de saúde e as iniciativas voltadas à ampliação do acesso ao atendimento especializado no estado.



