CIÚME, CONTROLE E PERSEGUIÇÃO PODEM SER SINAIS DE VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER, ALERTA DEFENSORIA

Dados do DataSenado mostram que ciúme e dificuldade em aceitar o fim do relacionamento aparecem entre os principais fatores associados às agressões em Mato Grosso
DA REDAÇÃO
Foto: Reprodução
Comportamentos como ciúme excessivo, controle da rotina, humilhações, ameaças, perseguições e a dificuldade em aceitar o fim de um relacionamento podem representar sinais de violência doméstica, mesmo quando ainda não houve agressão física. Em muitos casos, essas atitudes começam de forma gradual e acabam sendo confundidas com demonstrações de amor, preocupação ou cuidado.
O alerta é reforçado pela Defensoria Pública do Estado de Mato Grosso (DPEMT), que chama a atenção para a necessidade de identificar precocemente comportamentos abusivos e procurar orientação antes que a situação evolua para episódios mais graves.
Dados da Pesquisa Estadual de Violência Contra a Mulher 2025, realizada pelo Instituto DataSenado e divulgada em agosto, mostram a dimensão do problema em Mato Grosso. Segundo o levantamento, 14% das mulheres entrevistadas afirmaram ter sofrido algum tipo de violência doméstica e familiar nos 12 meses anteriores à pesquisa.
Entre os fatores apontados pelas vítimas como relacionados à agressão mais grave, o ciúme aparece em 59% dos relatos. A não aceitação do término ou da tentativa de encerramento do relacionamento foi mencionada em 52% dos casos.
Para a defensora pública Rosana Leite, coordenadora do Núcleo de Defesa da Mulher (Nudem) da DPEMT, situações que envolvem ciúme, consumo de álcool e inconformidade com o fim da relação precisam ser observadas com atenção, principalmente quando já existe um histórico de abuso.

“Todas essas situações, tais como ciúmes, embriaguez e não aceitação do término do relacionamento, são potencializadores da violência doméstica e familiar. É muito importante a atenção aos sinais que os relacionamentos tóxicos apresentam. Viver em um relacionamento abusivo é viver em violência doméstica e familiar”, destacou.
VIOLÊNCIA PODE CONTINUAR MESMO APÓS O FIM
Outro dado considerado preocupante pela Defensoria Pública está relacionado ao vínculo entre vítimas e suspeitos. Em 75% dos relatos, as mulheres indicaram ex-namorados, ex-maridos ou ex-companheiros como autores das agressões.
O número evidencia que o encerramento de uma relação não significa, necessariamente, o fim do ciclo de violência. Em alguns casos, a separação pode ser seguida por perseguições, ameaças, tentativas de controle, violência psicológica e agressões físicas.
Segundo Rosana Leite, o consumo de bebidas alcoólicas ou outras substâncias e a dificuldade em aceitar o término não são responsáveis por transformar alguém em agressor. Esses fatores, entretanto, podem intensificar comportamentos violentos que já existem.
“Nada faz criar pessoas agressoras, apenas externa a agressão que, a qualquer momento, seria demonstrada. Todavia, tudo isso pode ficar ainda pior quando outros ‘ingredientes’ são adicionados, tal como o ciúme, o uso de bebidas alcoólicas ou substâncias entorpecentes e a não aceitação do término”, explicou.
CONTROLE TAMBÉM PODE SER VIOLÊNCIA
A violência doméstica nem sempre começa com uma agressão física. Antes disso, a vítima pode enfrentar uma série de comportamentos que gradualmente reduzem sua autonomia.
Controlar com quem a mulher conversa, determinar suas roupas, monitorar o celular, impedir contato com familiares e amigos, fazer ameaças, provocar humilhações, controlar dinheiro e perseguir a vítima são exemplos de atitudes que podem integrar um relacionamento abusivo.
A orientação da Defensoria é para que a mulher não espere uma agressão física para procurar ajuda. Situações que provocam medo, insegurança, constrangimento ou limitação da liberdade devem ser levadas a sério.
“É muito importante a atenção aos sinais que os relacionamentos tóxicos apresentam”, reforçou a defensora.
Além de proteger as vítimas, os dados obtidos nas pesquisas também auxiliam na elaboração de estratégias de prevenção e políticas públicas voltadas ao enfrentamento da violência contra a mulher.
“As estatísticas são de extrema importância para que sejam trabalhadas políticas públicas, inclusive mostrando que as mulheres podem ser vítimas a qualquer momento, por conta dos sinais”, afirmou Rosana.
DEFENSORIA OFERECE ATENDIMENTO ESPECIALIZADO
A Defensoria Pública de Mato Grosso oferece atendimento especializado às mulheres que enfrentam situações de violência doméstica e familiar. O serviço permite receber orientação sobre direitos, medidas legais de proteção, encaminhamentos e outras providências necessárias de acordo com cada situação.
A instituição também busca fortalecer a autonomia das vítimas para que elas tenham acesso às informações necessárias e possam tomar decisões de forma mais segura.
No dia 10 de agosto, a DPEMT lançou a campanha “Seja a Voz que Acolhe”, iniciativa voltada ao enfrentamento da violência contra a mulher em Mato Grosso.
A campanha também procura envolver a sociedade na identificação dos sinais de violência. Familiares, amigos, vizinhos e colegas de trabalho podem desempenhar papel importante ao oferecer acolhimento e incentivar a busca por ajuda especializada.
A população também pode consultar o “Painel da Violência”, ferramenta que reúne informações relacionadas aos atendimentos realizados pela Defensoria Pública às mulheres em todo o Estado.
Outro espaço disponibilizado pela instituição é o “Painel de Defesa das Mulheres”, que reúne informações e serviços oferecidos pelo Núcleo de Defesa da Mulher.
PESQUISA OUVIU MAIS DE 21 MIL MULHERES
A Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher, realizada pelo Instituto DataSenado, reúne informações sobre a violência doméstica e familiar enfrentada pelas mulheres brasileiras.
A edição de 2025 contou com 21.641 entrevistas telefônicas com mulheres de 16 anos ou mais, realizadas em todo o território nacional entre 16 de maio e 8 de julho de 2025.
Os resultados permitem identificar padrões relacionados à violência e ajudam a dimensionar situações que muitas vezes permanecem escondidas dentro de relacionamentos.
Em Mato Grosso, os números reforçam a importância da prevenção e do acesso à informação. Reconhecer comportamentos abusivos nos primeiros sinais pode ser fundamental para interromper um ciclo de violência antes que ele se agrave.



