PLANTIO DIRETO PROTEGE O SOLO, REDUZ CUSTOS E AJUDA A MANTER A PRODUTIVIDADE EM MATO GROSSO

Sistema baseado na cobertura permanente do solo, no mínimo revolvimento e na rotação de culturas contribui para conservar água e nutrientes; pesquisas apontam vantagens da braquiária em solos arenosos.
DA REDAÇÃO | FOTO: APROSOJA MT
O Dia Nacional do Plantio Direto, celebrado nesta sexta-feira (23), destaca a importância de uma técnica agrícola que contribui para a conservação do solo e a sustentabilidade da produção de grãos. Presente em lavouras de todo o país, o Sistema de Plantio Direto (SPD) tem como base três princípios: revolver o solo o mínimo possível, mantê-lo coberto com palhada e diversificar as culturas cultivadas.
Em Mato Grosso, onde a agricultura enfrenta desafios relacionados à conservação da água, à erosão e às características dos diferentes tipos de solo, o sistema é apontado por especialistas como uma ferramenta importante para preservar a capacidade produtiva das áreas agrícolas e reduzir custos operacionais.
Diferentemente do preparo convencional, que envolve operações como a aração antes do plantio, o sistema permite semear diretamente sobre os resíduos da cultura anterior. Essa cobertura vegetal, conhecida como palhada, reduz o impacto das gotas de chuva sobre a superfície, diminui o risco de erosão, ajuda a conservar a umidade e contribui para regular a temperatura do solo.
À medida que se decompõe, a palhada também participa da ciclagem de nutrientes e favorece as condições físicas, químicas e biológicas necessárias ao desenvolvimento das plantas.
Para o vice-presidente Oeste da Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja MT), Gilson Antunes de Melo, o princípio do plantio direto pode ser observado na própria natureza.
“Numa floresta, as folhas das árvores vão caindo e formam uma camada sobre o solo. As sementes e os frutos caem no meio dessa palha, germinam e nascem plantas novas. O plantio direto é muito parecido”, explica.
Segundo ele, a manutenção dessa cobertura também permite reduzir operações mecanizadas, o consumo de combustível e as despesas com mão de obra e manutenção de máquinas.
“Cada vez que você coloca um trator na lavoura, está gastando diesel, mão-de-obra e manutenção, e tudo isso fica mais caro a cada dia. O revolvimento do solo é uma operação pesada, com consumo muito alto de diesel e de horas trabalhadas. No plantio direto, o produtor não tem essa etapa, só precisa ir lá e plantar, e isso reduz muito o custo de produção”, afirma.
Palhada reduz erosão e conserva a umidade
A proteção começa durante as chuvas. De acordo com o pesquisador André Somavilla, do Centro Tecnológico do Araguaia (CTECNO Araguaia), ligado à Aprosoja MT e ao Instituto Mato-grossense do Agronegócio (Iagro MT), a cobertura vegetal funciona como uma barreira entre a água e a superfície do terreno.
Sem essa proteção, as gotas atingem diretamente o solo, desprendendo partículas e favorecendo a formação de uma camada superficial compactada, que dificulta a infiltração da água. Com a palhada, esses efeitos são reduzidos.
O relevo também influencia os riscos. Em áreas inclinadas e extensas, a água pode se concentrar em determinados pontos da lavoura e escorrer com maior intensidade, carregando partículas de solo e formando sulcos de erosão.
“Quanto maior a declividade do terreno, menor a profundidade do perfil e menor a capacidade de infiltração de água desses solos, maior a propensão à perda de água e de solo pelos processos erosivos”, alerta Somavilla.
Além de proteger a superfície, a cobertura vegetal reduz a evaporação e ajuda a manter a água disponível por mais tempo, principalmente nos intervalos sem chuva durante a estação chuvosa, conhecidos como veranicos.
“Em áreas com palha, conseguimos seguir o plantio da soja por mais tempo depois da última chuva, em comparação com áreas sem palhada. As plantas demoram mais para sofrer estresse hídrico”, relata o pesquisador.
A cobertura também reduz o aquecimento direto da superfície, mantendo a temperatura do solo mais estável e diminuindo o risco de escaldadura, problema que pode atingir plantas jovens expostas ao calor intenso.
Outro benefício está relacionado à nodulação da soja. A manutenção de condições mais favoráveis de umidade e temperatura pode beneficiar a formação de nódulos nas raízes, onde bactérias associadas à planta captam nitrogênio atmosférico e o disponibilizam para a cultura.
A palhada ainda serve de alimento para microrganismos e pequenos organismos do solo, que participam da decomposição dos resíduos e da liberação de nutrientes para os cultivos seguintes.
Solos arenosos exigem atenção especial
Os benefícios do plantio direto se aplicam a diferentes tipos de solo, desde os mais profundos e bem drenados até aqueles com menor profundidade ou limitações de infiltração. A manutenção da cobertura, o revolvimento mínimo e a diversificação de culturas são medidas importantes tanto em solos argilosos quanto nos arenosos.
No Centro Tecnológico de Campo Novo do Parecis (CTECNO Parecis), os pesquisadores estudam áreas com teores de argila que variam de 35% a apenas 9%. Nas parcelas mais arenosas, a capacidade de reter água e nutrientes é menor, o que exige estratégias específicas de manejo.
Segundo Rodrigo Knevitz Hammerschmitt, pesquisador da Aprosoja MT e do Iagro MT, esses solos também tendem a acumular menos matéria orgânica, especialmente quando não recebem quantidade suficiente de resíduos vegetais.
Uma das alternativas é o uso de plantas de cobertura com grande produção de biomassa, como as braquiárias. Além de protegerem a superfície contra a radiação solar e reduzirem a evaporação, essas plantas contribuem para o aumento gradual da matéria orgânica.
A matéria orgânica favorece a formação de agregados, melhora a estrutura do solo e auxilia na retenção de água e nutrientes, reduzindo o risco de que esses elementos sejam transportados para camadas mais profundas, fora do alcance das raízes.
“Durante os veranicos, tudo isso ajuda a conservar a água disponível no solo por mais tempo, e as plantas conseguem suportar esses intervalos”, explica Hammerschmitt.
Sucessão entre soja e milho é um desafio
Apesar dos benefícios, ampliar o uso de plantas de cobertura enfrenta um obstáculo econômico. Em Mato Grosso, é comum o cultivo sucessivo de soja e milho na mesma área agrícola: após a colheita da soja, o produtor semeia o milho para obter duas receitas no mesmo ano agrícola.
A substituição do milho por uma planta de cobertura, portanto, pode representar a renúncia a uma receita imediata, enquanto os ganhos relacionados à conservação do solo e ao desempenho das safras seguintes podem levar mais tempo para aparecer.
“Substituir o milho por uma planta de cobertura significa abrir mão de uma receita imediata, enquanto os benefícios para o solo e para a produtividade das culturas seguintes geralmente não são percebidos no curto e médio prazo”, observa o pesquisador.
Hammerschmitt ressalta, porém, que a manutenção contínua de duas culturas comerciais pode desgastar solos arenosos quando não há produção suficiente de palhada nem diversidade de espécies. Nessas condições, incluir plantas de cobertura no planejamento anual pode ajudar a preservar o solo e manter a estabilidade produtiva.
Pesquisas de longo prazo são importantes para avaliar esses resultados, considerando não apenas o retorno financeiro de uma safra isolada, mas também os efeitos acumulados sobre a qualidade do solo e a rentabilidade ao longo dos anos.
No CTECNO Parecis, um estudo de rotação de culturas, com avaliação econômica realizada em parceria com o Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (IMEA), comparou sistemas ao longo de seis safras em solos arenosos. Nesse período, a sucessão entre soja e braquiária apresentou a maior rentabilidade entre as alternativas avaliadas, mesmo com apenas uma cultura comercial por ano.
A sucessão entre soja e milho também apresentou resultado positivo, mas, nas condições analisadas, o sistema com braquiária teve desempenho superior e contribuiu para preservar o solo e aumentar a matéria orgânica.
“Mas, nessas condições, a soja com braquiária foi mais eficiente, além de preservar mais o solo, aumentar a matéria orgânica e manter a estabilidade e rentabilidade produtiva”, afirma Hammerschmitt.
Os resultados reforçam a importância de avaliar as características de cada área antes de definir o sistema de cultivo. O planejamento da cobertura vegetal e da rotação de culturas pode influenciar tanto a conservação dos recursos naturais quanto os custos e a estabilidade da produção agrícola.
O Povo MT segue acompanhando pesquisas e iniciativas que contribuem para a inovação, a conservação ambiental e o fortalecimento do agronegócio em Mato Grosso.



