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SER FAMÍLIA: QUANDO A ASSISTÊNCIA SOCIAL DEIXA DE SER NÚMERO E VIRA RECOMEÇO EM MATO GROSSO

Com transferência de renda, qualificação profissional e acesso a direitos básicos, programa estadual alcança milhares de famílias e transforma histórias marcadas pela vulnerabilidade

POR LUCIANA BUENO/ Foto:SETASC-MT 

Quando a água começou a invadir a casa, Maria de Lurdes Lima tentou salvar o que conseguiu. Algumas roupas, documentos e poucos objetos pessoais. O restante ficou para trás. Em poucos minutos, a enchente levou parte do que ela havia construído durante anos e transformou a rotina em uma sequência de incertezas.

Sem renda fixa, sem estrutura e enfrentando dificuldades para reconstruir a própria vida, ela passou a conviver com uma preocupação diária: como garantir o básico.

“Depois que perdi tudo, achei que não ia conseguir seguir. Hoje, pelo menos, sei que não falta comida”, relata.

A história de Maria está longe de ser isolada. Em Mato Grosso, milhares de famílias enfrentam diariamente situações semelhantes, marcadas por desemprego, moradias precárias, doenças, violência doméstica e extrema vulnerabilidade social.

É nesse cenário que o Programa SER Família se consolidou como uma das principais ferramentas de assistência social do Estado, ampliando o acesso a direitos básicos e alcançando públicos que, muitas vezes, permaneciam fora das estatísticas tradicionais.

Mais do que transferência de renda, a iniciativa busca atuar como uma rede de proteção para famílias historicamente invisibilizadas.

Voltado para famílias inscritas no Cadastro Único com renda per capita de até R$ 218, o programa prioriza mulheres chefes de família, idosos, pessoas com deficiência, pacientes com doenças crônicas, vítimas de violência e comunidades tradicionais.

São histórias diferentes, mas marcadas por uma realidade em comum: a vulnerabilidade.

Retratos silenciosos da desigualdade

A estrutura do programa revela diferentes formas de exclusão social existentes dentro do estado.

Entre os critérios para participação estão famílias que vivem em áreas de risco, em condições insalubres, em situação de insegurança alimentar ou que convivem com agravantes como deficiência, doenças graves e violência.

Também são atendidos lares com idosos, crianças em situação de trabalho infantil, adolescentes submetidos a medidas socioeducativas, além de comunidades indígenas e quilombolas.

A proposta rompe com o modelo de assistência uniforme e busca direcionar o atendimento para realidades específicas.

Hoje, cerca de 60 mil famílias são atendidas diretamente pela principal modalidade do programa em Mato Grosso. Cada núcleo familiar recebe um auxílio mensal de R$ 150, voltado ao fortalecimento da segurança alimentar.

Entre 2023 e 2025, mais de R$ 227 milhões foram transferidos diretamente aos beneficiários por meio das diferentes modalidades do SER Família. Somente o cartão convencional foi responsável por movimentar R$ 155,5 milhões.

Os números chamam atenção, mas ganham significado nas casas onde a rotina ainda depende de escolhas difíceis.

Para quem vive em situação de vulnerabilidade extrema, o impacto do benefício muitas vezes não aparece em gráficos. Ele surge em situações simples: a compra do arroz, do leite, do gás ou de medicamentos.

Do auxílio imediato à busca por autonomia

A assistência financeira representa apenas uma das etapas do programa.

A estratégia inclui iniciativas voltadas à geração de oportunidades e emancipação econômica.

Por meio do SER Família Capacita, já foram registradas mais de 34,5 mil matrículas em cursos gratuitos distribuídos em 1.641 turmas nos 141 municípios mato-grossenses.

A proposta é transformar assistência imediata em oportunidades futuras.

Nos Centros de Referência de Assistência Social (CRAS), o trabalho vai além do preenchimento de formulários.

A assistente social Fernanda Mendonça explica que o acompanhamento exige proximidade e compreensão da realidade de cada família.

“O cadastro não é apenas uma etapa burocrática. Existe toda uma realidade que precisa ser entendida e acompanhada”, afirma.

O supervisor Antônio da Costa destaca que a integração entre benefício e acompanhamento fortalece os resultados.

“O programa amplia nossa capacidade de atuação e ajuda essas famílias a construírem caminhos para superar a vulnerabilidade”, diz.

Especialistas apontam que políticas sociais tendem a apresentar melhores resultados quando combinam transferência de renda e inserção produtiva.

Para o economista Marcelo Neri, iniciativas direcionadas conseguem alcançar grupos que normalmente permanecem fora das políticas tradicionais.

“O programa representa um avanço ao focar em famílias que escapam das estatísticas, garantindo uma proteção mais precisa”, avalia.

Segundo ele, a integração entre Cadastro Único e acompanhamento social cria um modelo capaz de gerar resultados sustentáveis no médio e longo prazo.

Da vulnerabilidade à reconstrução

Se Maria encontrou apoio após perder a própria casa, João Bosco da Silva enfrentou outro desafio.

Ele assumiu sozinho a responsabilidade de cuidar de três netos e precisou reorganizar completamente a rotina.

Com despesas aumentando e recursos limitados, manter a estabilidade financeira tornou-se uma tarefa difícil.

“Não é fácil, mas agora consigo cuidar deles com mais tranquilidade”, conta.

Outra realidade atendida pelo programa é a de Marta Pereira da Silva.

Mãe solo de quatro filhos, ela enfrenta diariamente a responsabilidade de sustentar a família.

“Tem dias que a gente não sabe como será o amanhã. Agora tenho uma ajuda que faz diferença”, relata.

As histórias são diferentes, mas revelam algo semelhante: a assistência chega em momentos de ruptura.

Moradia como novo capítulo

O alcance do programa também ultrapassou a transferência direta de renda.

Na modalidade SER Família Habitação Entrada Facilitada, mais de 10 mil famílias receberam subsídios de até R$ 35 mil para aquisição do primeiro imóvel.

Somente em 2025, os investimentos chegaram a R$ 300 milhões, beneficiando mais de 3,3 mil famílias.

Já a modalidade Faixa Zero, voltada para famílias em extrema vulnerabilidade, entregou 610 moradias integralmente gratuitas.

Paralelamente, o SER Família Solidário ampliou ações ligadas à segurança alimentar, registrando atendimento superior a 300 mil famílias em apenas um ano, com investimento acima de R$ 138 milhões em cestas básicas e kits de higiene.

Mudanças que ultrapassam as estatísticas

Os reflexos também aparecem nos indicadores sociais.

Dados apontam que aproximadamente 88,9 mil famílias conseguiram superar a linha da pobreza e deixaram de depender exclusivamente de programas federais de assistência após ampliarem a renda familiar.

No mesmo período, Mato Grosso alcançou renda domiciliar per capita média de R$ 2.335 por morador, superando a média nacional, segundo dados do IBGE.

Embora diferentes fatores econômicos influenciem esse cenário, especialistas apontam que políticas públicas direcionadas contribuem para acelerar processos de inclusão social.

O olhar acadêmico sobre a transformação social

Para compreender os impactos de políticas públicas como o SER Família para além dos indicadores oficiais, a reportagem também buscou referências na produção científica da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), instituição que há anos desenvolve pesquisas sobre assistência social, desigualdade e programas de transferência de renda.

Professora do Departamento de Serviço Social e do Programa de Pós-Graduação em Política Social da UFMT, Leana Oliveira Freitas é uma das principais pesquisadoras do Estado na área de políticas públicas, proteção social e combate à pobreza. Em seus estudos, a docente defende que programas voltados às famílias em situação de vulnerabilidade vão além da transferência de renda, constituindo instrumentos fundamentais para a garantia de direitos, redução das desigualdades e fortalecimento da cidadania.

As pesquisas desenvolvidas pela professora apontam que, quando uma família deixa de concentrar seus esforços apenas na sobrevivência diária e passa a acessar serviços públicos, manter crianças e adolescentes na escola, buscar qualificação profissional e planejar o futuro, inicia-se um processo de transformação social capaz de romper ciclos históricos de pobreza. Nesse contexto, políticas públicas estruturadas tornam-se importantes mecanismos para promover autonomia e ampliar oportunidades.

Outro aspecto destacado na produção acadêmica da pesquisadora é a importância da integração entre diferentes políticas públicas. Segundo seus estudos, ações articuladas entre assistência social, saúde, educação, justiça e geração de renda apresentam resultados mais consistentes do que iniciativas isoladas, justamente porque enfrentam as múltiplas dimensões da vulnerabilidade social. Essa atuação integrada fortalece a efetividade das políticas públicas e amplia a garantia de direitos às famílias atendidas.

Os estudos também apontam que um dos maiores desafios para Mato Grosso e para o Brasil continua sendo a continuidade das políticas de proteção social. O fortalecimento do financiamento, o monitoramento permanente dos resultados e a articulação entre os diferentes níveis de governo são apontados como fatores essenciais para que programas sociais contribuam não apenas para reduzir a pobreza, mas também para promover inclusão social, desenvolvimento humano e autonomia das famílias ao longo do tempo.

Da ideia à política pública

Antes de se transformar em uma das maiores iniciativas sociais do Estado, o SER Família começou a partir da percepção de que havia uma parcela da população que permanecia distante das políticas tradicionais de assistência.

Idealizadora do programa, Virginia Mendes relata que a proposta surgiu da necessidade de ampliar o alcance social e criar mecanismos capazes de atender famílias que, muitas vezes, não conseguiam acessar outras formas de apoio.

“O SER Família nasceu pensando na superação, na esperança e no respeito, tendo a família como nosso maior pilar”, afirmou.  

A primeira-dama também destaca que o objetivo sempre foi olhar para grupos que permaneciam invisíveis dentro das estatísticas sociais.

“Nosso objetivo sempre foi atender famílias invisíveis, que não conseguiam acesso a outros programas”, ressaltou.  

Ao longo dos anos, a iniciativa deixou de atuar apenas na transferência de renda e passou a incorporar ações ligadas à habitação, qualificação profissional, segurança alimentar e proteção social.

Esse crescimento transformou o programa em uma estrutura mais ampla, conectando diferentes frentes voltadas à redução da vulnerabilidade social em Mato Grosso.  

Mais do que benefício, a chance de começar outra vez

Para Maria, os números, investimentos e indicadores não aparecem em primeiro plano.

Eles assumem outra forma.

Aparecem na mesa onde hoje não falta alimento. Na possibilidade de reconstruir a rotina. Na esperança de que o futuro possa ser diferente do passado recente.

Quando políticas públicas conseguem chegar onde antes havia ausência, a transformação deixa de ser apenas administrativa.

Ela passa a ter rosto, endereço e história.

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