FAMÍLIA CENI TRANSFORMA PERSISTÊNCIA EM HISTÓRIA DE AGRICULTURA E SUCESSÃO EM SANTA CARMEM

Há mais de quatro décadas, família mantém propriedade no município e atravessa gerações entre desafios, trabalho no campo e planos para o futuro
DA REDAÇÃO | FOTO: BRUNO LOPES/APROSOJA MT
A história da família Ceni se confunde com parte da trajetória de Santa Carmem, no norte de Mato Grosso. Tudo começou na década de 1970, quando um agricultor paranaense decidiu conhecer Sinop, então uma região ainda em processo de ocupação e desenvolvimento. O que encontrou foi uma área com poucas estruturas, mas que despertou sua atenção.
Em 1977, ele esteve pela primeira vez em Sinop. Quatro anos depois, em 1981, comprou a área de terra em Santa Carmem que permanece sendo cultivada pela família até hoje.
O filho, Rudimar Ceni, produtor rural do Núcleo de Sinop da Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja MT), guarda com orgulho a lembrança da decisão tomada pelo pai.
“Eu tenho muito orgulho do meu pai, porque ele foi um visionário. Ele veio conhecer Sinop em 1977, não tinha nada em Sinop, e ele se encantou com isso aqui. E daí em 1981 adquiriu essa área de terra. Tinha que desbravar tudo. Mas mesmo assim ele teve essa visão e veio”, conta.
Naquele período, Rudimar cursava faculdade em Curitiba. Em julho de 1981, aproveitou as férias para visitar Mato Grosso e conhecer a propriedade recém-adquirida pelo pai.
A experiência foi suficiente para mudar seus planos. De volta ao Paraná, ele tentou continuar os estudos, mas não conseguiu deixar a região norte de Mato Grosso para trás. No ano seguinte, decidiu trancar a faculdade e retornar definitivamente.
“Eu vim conhecer aqui em 1981, em julho. Fiquei apaixonado por isso aqui e já queria até ficar. Só que não me deixaram, queriam que eu terminasse a faculdade. Mas no ano seguinte eu não aguentei, tranquei a faculdade e em 1982 vim pra cá”, relembra.
DESAFIOS PELO CAMINHO
Os primeiros anos foram marcados pela falta de infraestrutura e pelas dificuldades de acesso à propriedade. O deslocamento entre Sinop e a fazenda era complicado e exigia disposição para enfrentar as condições da época.
A família também passou por um momento difícil em 1993, quando a mãe de Rudimar morreu. O pai perdeu o ânimo e chegou a considerar a possibilidade de vender a propriedade.
Naquele momento, Rudimar mantinha um beneficiamento de madeira em Sinop e decidiu deixar Mato Grosso, vendendo o empreendimento e retornando ao Paraná.
“Não, eu já desisti, inclusive. Em 1993 minha mãe faleceu e o pai também deu uma boa desanimada, pretendia vender a fazenda e ir embora. Vendi o beneficiamento e fui embora para o Paraná”, afirma.
A distância, porém, não durou muito. Em 1998, o pai mudou novamente os planos e decidiu investir na agricultura. A decisão fez Rudimar retornar ao estado e iniciar uma nova etapa da trajetória da família no campo.
“Aí eu fiquei louco e voltei pra cá de novo. E daí começamos na agricultura que está hoje”, conta.
TRABALHO PASSA DE PAI PARA FILHO
A vida pessoal de Rudimar também foi construída durante esse período. Ele conheceu a esposa ainda no Paraná, onde os dois se casaram antes de se mudarem para Mato Grosso.
O casal teve o filho Felipe, que atualmente participa diretamente da administração da propriedade e é responsável pela parte financeira.
A relação entre as gerações começou cedo. Felipe acompanhava o avô no escritório e, posteriormente, assumiu a função quando ele se aposentou.
Pai e filho dividem as responsabilidades de acordo com as afinidades de cada um. Enquanto Felipe fica mais ligado às atividades administrativas na cidade, Rudimar prefere acompanhar de perto a rotina da propriedade rural.
“Ele fica lá no escritório, na cidade, e eu fico mais aqui na fazenda. Eu gosto mais de ficar aqui”, explica.
OLHOS VOLTADOS PARA A PRÓXIMA GERAÇÃO
Se a sucessão já aconteceu entre avô, pai e filho, Rudimar agora olha para uma nova geração da família.
Aos 63 anos, ele deposita esperança na neta e vê nela a possibilidade de continuidade da história construída pela família ao longo de mais de quatro décadas.
“Estou com esperança na minha neta. Estou com bastante esperança na minha neta. Ela é um espetáculo”, afirma, com entusiasmo.
Para Rudimar, a decisão tomada ainda aos 19 anos, quando escolheu deixar a faculdade e seguir para Mato Grosso, continua fazendo sentido.
A agricultura, segundo ele, traz riscos e incertezas, mas também representa um motivo de orgulho e uma atividade essencial para a sociedade.
“A agricultura é uma coisa essencial no mundo, é o que leva a comida à mesa de cada um. É uma coisa que a gente tem orgulho de fazer. É cheia de riscos, a gente sabe que os riscos são enormes, mas a gente se acostumou. Vai passando um ano, vai entrando o outro e quando vê, está plantando de novo, está colhendo de novo. Eu tenho muito orgulho, sim”, finaliza.



