A FÉ EM HORÁRIO NOBRE

Imagine um bispo com vestes de gala diante de um quadro-negro, disputando a atenção dos americanos no horário nobre com Frank Sinatra. A cena pode parecer improvável, mas ajuda a compreender a trajetória de Fulton Sheen, um dos grandes comunicadores católicos do século XX, beatificado neste 24 de setembro, etapa que antecede a canonização.
Nos anos 1950, seu programa Life Is Worth Living “A vida vale a pena ser vivida” chegou a uma audiência estimada em 30 milhões de espectadores por semana. A atração estreou em três emissoras e, em menos de dois meses, já era transmitida por 15. Sheen recebia cerca de 8.500 cartas semanalmente.
O bispo dividia o horário nobre com Sinatra e o humorista Milton Berle. O programa do cantor acabou deixando aquela faixa de programação. Em 1952, Sheen estampou a capa da revista Time, sinal da dimensão que sua comunicação havia alcançado para além do público católico.
No ano seguinte, recebeu um Emmy por seu trabalho na televisão, em uma premiação que reunia grandes nomes do entretenimento americano. Ao agradecer pelo reconhecimento, atribuiu parte do sucesso aos “roteiristas” de seu programa: os evangelistas Mateus, Marcos, Lucas e João.
Sua influência também ultrapassava as telas. Em Nova York, milhares de pessoas se reuniam na Catedral de São Patrício para ouvi-lo pregar. A multidão chegou a ocupar as áreas externas e a provocar bloqueios no trânsito da Quinta Avenida e de regiões próximas, alcançando até os arredores da Times Square.
Por trás daquela aparente espontaneidade, havia muito preparo, concentração e oração. Um programa de apenas 28 minutos podia exigir até 35 horas de preparação. Para dialogar também com quem não era católico, Sheen recorria a referências como Freud, Marx e Shakespeare, relacionando suas ideias à mensagem do Evangelho.
Humor, filosofia e questões do cotidiano faziam parte de sua forma de comunicar. Falava sobre consciência, sofrimento, amor, família e casamento, alcançando pessoas que talvez jamais entrassem em uma igreja.
Em uma sociedade que ainda carregava forte resistência ao catolicismo em determinados setores, Fulton Sheen ajudou a romper preconceitos. Sua atuação também esteve relacionada à conversão ao catolicismo de personalidades como Bella Dodd, ex-dirigente comunista, e Henry Ford II.
Às vésperas da beatificação, o papa Leão XIV pediu que o exemplo de Fulton Sheen inspire novas formas de anunciar o Evangelho com alegria e entusiasmo. A mensagem também alcança aqueles que trabalham diariamente com comunicação.
No Brasil, essa missão ganhou diferentes vozes e iniciativas. Monsenhor Jonas Abib, com a Canção Nova; os redentoristas, por meio da Rádio e da TV Aparecida; canais como Rede Vida, TV Século 21 e Rede Evangelizar; organizações e projetos como Signis Brasil, Pascom e Paulinas; além de comunicadores como frei Gilson, padre Marcelo Rossi e padre Paulo Ricardo, da Arquidiocese de Cuiabá.
Fulton Sheen soube entrar nas casas com inteligência, preparo e bom humor. Em um tempo marcado por uma verdadeira overdose de informação, permanece o desafio de fazer com que aquilo que dizemos também possa ajudar quem está do outro lado da tela.
A Igreja teve papel importante na formação da civilização ocidental, e essa contribuição continua quando a presença cristã na comunicação estimula valores como honestidade, fidelidade, responsabilidade com os filhos, cuidado com os mais frágeis e compromisso com a verdade. São princípios que também podem contribuir para a convivência entre pessoas de diferentes crenças.
Como escreveu São Josemaria Escrivá, que nossa vida não seja estéril. Sigamos deixando rastro.
Por Eduardo Cardoso
jornalista 💫



