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PARÁ GANHA PROTAGONISMO NA CORRIDA GLOBAL POR MINERAIS QUE MOVEM A NOVA ECONOMIA

Estado concentra grandes reservas de ferro, cobre e bauxita e passa a ocupar posição estratégica diante da expansão da energia limpa, da tecnologia e da indústria de alta complexidade

POR LUCIANA BUENO | FOTO: REPRODUÇÃO

Durante décadas, a riqueza mineral do Pará foi associada principalmente ao minério de ferro e à força de grandes projetos instalados na região de Carajás. Agora, essa realidade ganha uma nova dimensão. Com o avanço da transição energética, da eletrificação da economia, das tecnologias digitais e da disputa internacional por cadeias de suprimentos mais seguras, os recursos minerais encontrados no estado passaram a ocupar uma posição ainda mais estratégica no cenário mundial.

Ferro, cobre, bauxita, níquel e ouro estão entre os recursos que ajudam a explicar a importância do território paraense. Ao mesmo tempo, o debate nacional começa a se voltar para a necessidade de transformar essa riqueza natural em tecnologia, indústria, empregos qualificados, inovação e desenvolvimento regional.

A Agência Nacional de Mineração (ANM) aponta que a Amazônia Legal responde por 48,2% dos processos relacionados a minerais críticos e estratégicos existentes no país. Dentro da região, o Pará concentra 51% desses processos, seguido por Mato Grosso, com 19%, e Rondônia, com 10,3%. O levantamento mostra ainda que ouro, estanho e cobre estão entre as principais substâncias presentes nos processos minerários estratégicos da Amazônia.

O cenário coloca o Pará diante de uma oportunidade econômica que ultrapassa a simples extração mineral. A disputa internacional agora envolve quem terá capacidade de controlar não apenas as reservas, mas também as etapas de processamento, transformação e fabricação dos produtos de maior valor agregado.

UMA RIQUEZA QUE GANHOU NOVO SIGNIFICADO

Minerais considerados críticos ou estratégicos são essenciais para setores que vão desde a produção de baterias e veículos elétricos até redes de transmissão de energia, equipamentos eletrônicos, defesa e tecnologias de alta complexidade.

Segundo a ANM, a importância desses minerais está diretamente relacionada ao risco de interrupção do fornecimento e à concentração geográfica de sua produção ou processamento. Um exemplo é o cobre, fundamental para a eletrificação e para a expansão das redes de energia.

A transformação tecnológica também aumenta a pressão sobre esses recursos. A expectativa é que a demanda mundial por minerais críticos como lítio, grafita, níquel, cobalto, cobre e terras raras cresça de forma expressiva nas próximas décadas, impulsionada pela transição energética e pela redução das emissões de carbono.

Nesse contexto, o Pará aparece em uma posição privilegiada.

A Província Mineral de Carajás, no sudeste do estado, reúne algumas das mais importantes reservas minerais brasileiras e abriga uma cadeia produtiva que movimenta municípios, trabalhadores, empresas fornecedoras, comércio e serviços.

CARAJÁS: O CORAÇÃO MINERAL DO PARÁ

É impossível falar sobre a transformação da mineração paraense sem mencionar Carajás.

A região se tornou uma das principais áreas produtoras de minério de ferro do planeta e, ao longo das últimas décadas, também ampliou sua importância na produção de cobre.

O crescimento dessa atividade transformou profundamente municípios como Parauapebas e Canaã dos Carajás, que passaram a conviver com grandes operações industriais, milhares de trabalhadores e uma intensa movimentação econômica.

O desafio atual, porém, é maior: fazer com que a riqueza mineral gere efeitos permanentes para além do período de exploração das jazidas.

É justamente nesse ponto que entra uma das principais discussões sobre o futuro da mineração brasileira: como deixar de ser apenas um grande exportador de matéria-prima e avançar para uma economia capaz de produzir conhecimento, tecnologia e produtos de maior valor agregado.

COBRE GANHA ESPAÇO NA NOVA ECONOMIA

Entre os minerais que mais ganharam importância nos últimos anos está o cobre.

O metal é indispensável para cabos, motores, equipamentos elétricos, sistemas de transmissão, veículos eletrificados, centros de processamento de dados e diversas tecnologias associadas à digitalização.

Na região de Carajás, operações como Salobo e Sossego fazem do Pará um dos principais polos brasileiros de produção de cobre.

A expansão desse segmento também abre novas perspectivas. O projeto Bacaba, por exemplo, está associado à continuidade da produção de cobre na região de Canaã dos Carajás e representa uma nova frente de investimentos no território.

O avanço desses projetos demonstra como o perfil da mineração paraense vem se diversificando.

O estado não depende exclusivamente do minério de ferro. A crescente importância do cobre coloca a região dentro de uma cadeia diretamente relacionada à eletrificação, às energias renováveis e à infraestrutura tecnológica.

A BAUXITA E A FORÇA DA CADEIA DO ALUMÍNIO

Outro recurso fundamental é a bauxita, principal matéria-prima utilizada na produção de alumínio.

O Pará possui posição dominante na produção brasileira. Dados da ANM mostram que o estado produziu aproximadamente 29,5 milhões de toneladas de bauxita beneficiada em 2024, o equivalente a 92,6% da produção nacional.

A dimensão desses números ajuda a compreender por que a mineração possui peso tão elevado na economia paraense.

A bauxita, entretanto, também expõe um dos grandes desafios do país: quanto maior a capacidade de avançar no beneficiamento e na transformação industrial, maior pode ser o valor econômico capturado dentro do próprio território.

Essa discussão ganhou ainda mais força com a criação da Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos.

NOVA LEI MUDA A ESTRATÉGIA DO BRASIL

Em setembro de 2026, o governo federal sancionou a Lei nº 15.506/2026, que criou a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos e o Conselho Nacional para Industrialização de Minerais Críticos e Estratégicos.

A legislação busca estimular pesquisa, lavra, beneficiamento, transformação e mineração urbana, com o objetivo de aumentar a agregação de valor dentro do país.

A nova política representa uma mudança importante na forma como o Brasil pretende enxergar seus recursos minerais.

A discussão deixa de ser exclusivamente sobre quanto o país consegue retirar do solo e passa a envolver quanto consegue transformar em produtos, tecnologia e conhecimento.

A legislação também criou instrumentos para estimular investimentos em etapas de maior valor agregado da cadeia produtiva.

Para o Pará, essa mudança pode representar uma oportunidade significativa.

Com uma das maiores concentrações minerais do Brasil, o estado possui condições para participar de uma cadeia econômica muito mais sofisticada, desde que consiga atrair investimentos, infraestrutura, pesquisa e formação profissional.

O DESAFIO DE TRANSFORMAR MINÉRIO EM DESENVOLVIMENTO

A riqueza mineral, por si só, não garante desenvolvimento sustentável.

Essa é uma das principais questões colocadas por especialistas, órgãos públicos e representantes da própria indústria.

A ANM alerta que um dos riscos para o Brasil está justamente em não avançar para etapas de maior valor agregado, como processamento e refino. Sem essa evolução, o país pode continuar exportando matérias-primas e importando produtos industrializados de maior valor.

O problema não é exclusivamente econômico.

Quando uma atividade baseada em recursos naturais possui ciclos de alta e baixa, municípios muito dependentes da mineração ficam sujeitos às oscilações do mercado internacional e à própria vida útil das jazidas.

Por isso, a diversificação econômica aparece como uma das principais estratégias para regiões mineradoras.

CANAÃ DOS CARAJÁS: ENTRE O CRESCIMENTO E OS DESAFIOS

Canaã dos Carajás é um dos exemplos mais emblemáticos dessa transformação.

O município passou por um processo acelerado de crescimento associado à mineração. O aumento da arrecadação e da atividade econômica trouxe novas oportunidades para trabalhadores, empreendedores e prestadores de serviços.

A cadeia mineral também criou programas voltados à qualificação profissional e ao empreendedorismo local.

Entre os exemplos está uma iniciativa voltada a mulheres de comunidades do município. O projeto começou em 2017 com 20 participantes da Vila Bom Jesus e chegou a mais de 90 mulheres distribuídas em seis oficinas. Segundo os dados divulgados pelo projeto, 80% delas nunca haviam participado de uma capacitação e 95% não tinham atividade geradora de renda antes da iniciativa.

São números que mostram que os efeitos da mineração não precisam se limitar aos empregos diretamente ligados às minas.

Quando existem programas de capacitação, empreendedorismo e inclusão produtiva, a atividade pode criar oportunidades em outros setores da economia.

GLÓRIA: UMA HISTÓRIA DE OPORTUNIDADE

Entre as histórias que ajudam a dimensionar esse impacto está a de Glória Borges da Silva.

Ela entrou na Vale por meio do Programa de Formação Profissional e, posteriormente, tornou-se a primeira mulher a atuar como inspetora de manutenção elétrica no S11D.

A trajetória profissional também abriu espaço para que ela ingressasse no curso de Engenharia Elétrica.

“Nunca imaginei conquistar o que já conquistei pelo meu trabalho. O PFP é uma porta de entrada muito boa, capaz de abrir horizontes”, afirmou Glória em depoimento divulgado pela empresa.

Sua história representa uma transformação que vai além do salário ou do cargo ocupado.

A entrada de mulheres em funções tradicionalmente dominadas por homens demonstra como a expansão da mineração também pode alterar perfis profissionais e abrir novos caminhos para moradores da região.

Dados divulgados sobre o S11D apontam que 47% dos trabalhadores são moradores do Pará. Entre a força de trabalho local, as mulheres representam 25,9%, enquanto ocupam 20,5% das posições de liderança.

POLYANA E A PROFISSÃO QUE CRESCE JUNTO COM A CIDADE

Outra personagem dessa transformação é Polyana Godoy, engenheira que atua na área de segurança em Serra Sul.

Moradora de Canaã dos Carajás, ela relaciona sua trajetória profissional às oportunidades abertas pela atividade mineral.

“A Vale transformou minha trajetória e a de Canaã: com educação, incentivo e oportunidades, hoje sou engenheira e vejo minha cidade crescer junto com o projeto”, afirmou.

Histórias como a de Glória e Polyana ajudam a mostrar uma dimensão frequentemente escondida pelos grandes números da mineração: a transformação da vida profissional de pessoas que nasceram ou construíram suas trajetórias nas próprias comunidades impactadas pelos projetos.

ROYALTIES E O DINHEIRO QUE VOLTA PARA OS MUNICÍPIOS

Outro mecanismo importante é a Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais, a CFEM.

Em 2025, a arrecadação nacional da CFEM chegou a aproximadamente R$ 7,91 bilhões, segundo a ANM.

Do valor distribuído, cerca de R$ 5,92 bilhões foram destinados aos municípios, enquanto aproximadamente R$ 1,17 bilhão foi repassado aos estados.

Mais de 5,2 mil municípios brasileiros receberam algum valor da compensação em 2025.

Em municípios mineradores do Pará, como Canaã dos Carajás e Parauapebas, os repasses representam uma fonte importante de recursos públicos.

O desafio está em transformar essa receita em investimentos capazes de permanecer depois que a exploração mineral diminuir.

Educação, saúde, infraestrutura, saneamento, qualificação profissional, tecnologia e diversificação econômica são algumas das áreas capazes de construir alternativas para o futuro.

QUANDO A RIQUEZA TAMBÉM GERA CONFLITOS

Mas qualquer reportagem sobre o futuro mineral do Pará precisa olhar para além dos números positivos.

A mineração também produz conflitos territoriais, ambientais e sociais que precisam ser investigados e acompanhados pelos órgãos públicos.

Em julho de 2026, o Ministério Público Federal realizou uma visita técnica à comunidade Vila Bom Jesus, em Canaã dos Carajás, após relatos de moradores sobre possíveis impactos relacionados à atividade minerária.

Entre as reclamações apresentadas estavam poeira, rachaduras em imóveis, possíveis impactos sobre água, agricultura e pesca, além de outras questões relacionadas à vida da comunidade.

As alegações são objeto de investigação e não podem ser tratadas como fatos definitivamente comprovados.

O MPF informou que pretende aprofundar a análise com estudos técnicos envolvendo profissionais das áreas ambiental e antropológica.

O procurador da República Igor Spindola afirmou que a investigação deverá avaliar os impactos ambientais na água e no solo e também analisar aspectos relacionados à comunidade.

O episódio demonstra que o crescimento econômico precisa caminhar acompanhado de fiscalização, transparência e mecanismos de proteção às populações que vivem próximas aos grandes projetos.

O MEIO AMBIENTE NO CENTRO DA DISCUSSÃO

O avanço da mineração ocorre em um momento em que o próprio Pará enfrenta desafios ambientais importantes.

Dados do MapBiomas mostram que o estado registrou 7.062 alertas de desmatamento em 2025. Embora tenha ocorrido redução de 42,4% em relação ao ano anterior, o Pará permaneceu entre os estados com maior número de alertas.

É importante, porém, diferenciar as diferentes causas do desmatamento. A mineração industrial não pode ser automaticamente responsabilizada por todo o desmatamento registrado no estado.

O garimpo, por exemplo, aparece como um dos vetores relevantes de pressão sobre a floresta, especialmente na Amazônia.

Essa distinção é fundamental para que o debate público não seja reduzido a generalizações.

O desafio é identificar com precisão os impactos de cada atividade, fortalecer a fiscalização e garantir que projetos autorizados cumpram as exigências ambientais e sociais.

UM NOVO TABULEIRO GEOPOLÍTICO

A importância dos minerais estratégicos também ultrapassa as fronteiras brasileiras.

Estados Unidos, China, União Europeia e outras grandes economias disputam acesso seguro a matérias-primas necessárias para baterias, semicondutores, veículos elétricos, equipamentos de defesa, sistemas de energia e tecnologias digitais.

Nesse cenário, possuir grandes reservas deixa de ser apenas uma vantagem econômica.

Passa a representar também uma questão de segurança nacional.

A própria ANM destaca que os minerais críticos e estratégicos estão relacionados à soberania, segurança alimentar, transição energética e desenvolvimento tecnológico.

O Brasil, portanto, precisa decidir qual posição deseja ocupar nessa nova cadeia global.

Ser apenas fornecedor de minério significa capturar uma parcela do valor gerado.

Participar das etapas de processamento, transformação e fabricação significa disputar uma parcela muito maior da riqueza produzida.

O PAPEL DO PARÁ NESSA TRANSFORMAÇÃO

É justamente nesse ponto que o Pará pode ganhar protagonismo.

O estado reúne reservas minerais, infraestrutura já instalada, experiência operacional, mão de obra especializada e grandes projetos capazes de atrair novos investimentos.

O Plano Nacional de Mineração 2050, elaborado pelo Ministério de Minas e Energia, coloca entre suas prioridades a ampliação do conhecimento geológico, o aproveitamento responsável dos recursos, a agregação de valor, a sustentabilidade e o desenvolvimento das comunidades relacionadas à mineração.

O Serviço Geológico do Brasil também incluiu minerais estratégicos entre suas prioridades de pesquisa, com projetos relacionados a cobre, ouro, níquel, bauxita, manganês e terras raras, incluindo estudos específicos na região de Carajás.

Isso significa que a próxima etapa da mineração paraense pode ser marcada não apenas pela abertura de novas minas, mas também pelo conhecimento produzido a partir delas.

O FUTURO NÃO ESTÁ APENAS DEBAIXO DA TERRA

A grande pergunta que se apresenta para o Pará é o que será feito com essa vantagem.

A riqueza mineral é finita.

As jazidas podem durar décadas, mas não são eternas. Por isso, a verdadeira medida do desenvolvimento provocado pela mineração não deve ser apenas o volume de toneladas retiradas ou o valor exportado.

Também precisa considerar quantas escolas foram melhoradas, quantos profissionais foram formados, quantas empresas locais cresceram, quantas tecnologias foram desenvolvidas, quantos empregos qualificados permaneceram e quanto da riqueza gerada foi convertido em uma economia capaz de continuar funcionando no futuro.

O desafio é transformar uma riqueza que está debaixo da terra em oportunidades que permaneçam sobre ela.

Para o Pará, a nova corrida mundial pelos minerais estratégicos pode representar uma oportunidade histórica.

Mas o protagonismo não será determinado apenas pelo tamanho das reservas.

Será definido pela capacidade de transformar minério em conhecimento, conhecimento em tecnologia e tecnologia em desenvolvimento.

E, sobretudo, pela capacidade de fazer com que a riqueza mineral se converta em qualidade de vida para as pessoas que vivem nos territórios onde essa riqueza é encontrada.

O Povo MT segue acompanhando as transformações da economia brasileira, os investimentos no setor mineral e os impactos sociais, ambientais e econômicos provocados pela nova corrida mundial por recursos estratégicos.

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