PIONEIRO DE ITANHANGÁ RELEMBRA DESAFIOS E A PARTICIPAÇÃO NA CONSTRUÇÃO DO MUNICÍPIO
Produtor rural Claudionor Francisco Basso chegou à região em 1997, ajudou na abertura de estradas, mobilização pela chegada da energia elétrica e participou do processo de emancipação de Itanhangá

DA REDAÇÃO
Foto: Taiguara Luciano/Aprosoja MT
A história de Itanhangá, município que se consolidou a partir da força do trabalho no campo, também é marcada pela trajetória de famílias que enfrentaram dificuldades para transformar uma região ainda sem infraestrutura em uma comunidade estruturada. Entre os personagens que acompanharam esse processo está o produtor rural Claudionor Francisco Basso, delegado do núcleo da Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja MT) no município.
Natural de uma família de agricultores e acostumado desde a infância à rotina da produção rural, Claudionor chegou a Mato Grosso em 1988 em busca de oportunidades e de uma área onde pudesse trabalhar. Anos depois, em 1997, desembarcou na região onde atualmente está Itanhangá, quando a localidade ainda enfrentava dificuldades básicas de acesso, comunicação, energia elétrica e infraestrutura.
Naquele período, a realidade era muito diferente da atual. Para garantir condições mínimas de permanência e desenvolvimento, os próprios moradores precisaram assumir responsabilidades que normalmente seriam atribuídas ao poder público. A abertura de estradas foi uma das primeiras grandes mobilizações, com participação de produtores, moradores e prefeituras da região.
Claudionor conta que a chegada da energia elétrica também exigiu esforço coletivo. Os moradores precisaram se organizar e assumir compromissos financeiros para viabilizar a instalação da rede, dividindo entre as famílias os custos necessários para levar o fornecimento até a comunidade.
“Éramos 300 moradores na vila e fizemos um contrato para pagar em dez anos. Todo mês que vinha a energia, nós pagávamos a taxa do tronco para poder manter o fornecimento. Graças a Deus, a energia chegou. Em três anos que estávamos na vila, nós já tínhamos energia dentro da cidade”, relembrou.
A construção da comunidade não ficou restrita ao trabalho dos homens. A esposa de Claudionor, Nara Basso, também participou diretamente das atividades que ajudaram a estruturar a localidade. Ao lado do marido e dos filhos, ela se envolveu em ações relacionadas à igreja, associações e construção da escola.
Segundo Nara, a pequena quantidade de moradores fazia com que praticamente todas as famílias precisassem participar das iniciativas comunitárias. As tarefas eram divididas entre os moradores, que se reuniam principalmente nos finais de semana para trabalhar e organizar os serviços necessários.
“Éramos poucas pessoas, e as que estavam ali participavam. Era o casal com os filhos, todos participavam. Todo final de semana a gente ia prestar serviço para a igreja, para as associações e participar das reuniões. Tinha que ir porque éramos poucas pessoas. A gente se unia para fazer acontecer”, contou.
Os primeiros anos também foram marcados por dificuldades financeiras e pela ausência de serviços essenciais. Em determinado momento, Claudionor chegou a cogitar deixar a região diante dos obstáculos enfrentados pela família. Um dos episódios mais difíceis ocorreu quando uma das filhas precisou de atendimento médico e o deslocamento até uma cidade com estrutura adequada se tornou um grande desafio.
Para manter a família, o produtor precisou conciliar diferentes atividades. Enquanto Nara e os filhos permaneciam na propriedade, Claudionor utilizava um pequeno caminhão para trabalhar em safras na região de Lucas do Rio Verde.
“Eu tinha um caminhãozinho que conquistei trabalhando em fazenda, eu e minha esposa. Esse caminhãozinho sustentava nós. Eu ia fazer safra em Lucas do Rio Verde e minha esposa e meus filhos ficavam aqui no sítio. O maior desafio foi quando começamos aqui sem recurso. Cheguei a sentar em cima de um toco e chorar. Mas nós somos muito persistentes, fomos muito persistentes e não desistimos. Enfrentamos esse desafio e, graças a Deus, conseguimos vencer”, afirmou.
A determinação, segundo o produtor, veio dos ensinamentos recebidos ainda na infância. Filho de agricultores, ele cresceu em contato direto com o trabalho rural e aprendeu dentro de casa que as dificuldades deveriam ser enfrentadas com persistência.
“Sempre fomos filhos de agricultores, nasci na roça, me criei na roça, e a criação da gente era a seguinte: vai fazer e nunca desistir”, destacou.
Com o crescimento da comunidade e o processo de emancipação, novas necessidades surgiram. Itanhangá foi oficialmente criado como município em 2005 e passou a demandar uma estrutura própria para atender a população, incluindo escolas, estradas, serviços públicos, produção agrícola e equipamentos comunitários.
Por ter participado dos primeiros movimentos de organização da localidade, Claudionor esteve envolvido em diferentes etapas da construção do município. Sua atuação passou pela mobilização dos moradores, associação de produtores, abertura e recuperação de estradas, construção da igreja, transporte escolar, busca pela expansão da energia elétrica, segurança, processo de emancipação e fortalecimento da agricultura.
A experiência também o levou para a administração pública. Claudionor assumiu a Secretaria Municipal de Agricultura, onde permaneceu por três anos e trabalhou na busca por recursos e na implantação de iniciativas voltadas ao desenvolvimento do setor produtivo.
“Fiz parte da emancipação, do grupo de emancipação do município. Participei da implantação do município, graças a Deus. E continuo participando até hoje da comunidade e da igreja”, contou.
Durante sua passagem pela Secretaria de Agricultura, o produtor afirma ter encontrado uma estrutura ainda muito limitada e precisou buscar recursos junto ao governo estadual para ampliar o patrimônio e a capacidade de atendimento do município.
“Naquela época, nós éramos zerados, íamos para Cuiabá e, muitas vezes, ficávamos até 10 ou 11 horas esperando o governador sair de uma janta ou de uma reunião para conseguirmos recursos. Quando entrei na Secretaria da Agricultura, havia 140 mil reais de patrimônio, eu entreguei com três milhões”, relatou.
Entre as ações desenvolvidas ao longo dos anos estão iniciativas relacionadas às agroindústrias, à Feira do Produtor e à estruturação da atividade agrícola. Para Claudionor, cada uma dessas etapas representa parte de uma trajetória construída coletivamente por moradores que decidiram permanecer na região mesmo diante das limitações.
O legado dessa história também passou para os filhos. Claudionor Henrick, filho mais novo do casal, acompanha com orgulho a trajetória dos pais e destaca os ensinamentos recebidos ao longo da vida, especialmente a valorização do trabalho rural e a persistência diante das adversidades.
“Eles são meu maior orgulho. É o orgulho de ser filho deles e de poder carregar isso comigo. A história deles, ter acompanhado uma pequena parte, não toda a vida, mas essa pequena parte desde o início da minha vida até agora, eu quero carregar esse orgulho pelo resto da vida comigo”, afirmou.
A trajetória de Claudionor e Nara Basso se confunde com parte da própria formação de Itanhangá. Em uma época em que estradas ainda precisavam ser abertas, a energia dependia da mobilização dos moradores e os serviços básicos eram construídos com esforço comunitário, famílias como a deles ajudaram a criar as condições para o desenvolvimento da cidade.
Hoje, décadas depois, o município apresenta uma realidade diferente daquela encontrada pelos primeiros moradores. A agricultura continua ocupando papel importante na economia local, enquanto as novas gerações dão continuidade a uma história iniciada por famílias que enfrentaram os desafios do interior de Mato Grosso e ajudaram a transformar trabalho, persistência e união em desenvolvimento.



