NO QUINTAL DE CASA, APICULTORA DE CHAPADA DOS GUIMARÃES TRANSFORMA PAIXÃO POR ABELHAS EM MISSÃO DE PRESERVAÇÃO

Professora Márcia Venâncio dedica mais de uma década ao cuidado com abelhas sem ferrão e reforça a importância das espécies nativas para o equilíbrio ambiental e a produção de alimentos
Da Redação | Foto: Jonatas Boni
No quintal de casa, em meio às flores e árvores de Chapada dos Guimarães, a professora e apicultora Márcia Venâncio construiu um verdadeiro refúgio para abelhas nativas sem ferrão. O espaço, que hoje abriga diferentes espécies, se tornou símbolo de dedicação, estudo e preservação ambiental.
Neste 22 de maio, data em que é celebrado o Dia do Apicultor, a trajetória de Márcia ganha destaque pela relação criada ao longo dos anos com as melíponas — abelhas nativas fundamentais para a polinização e manutenção da biodiversidade.
A paixão começou de forma inesperada, quando uma abelha Jataí apareceu em um pé de aroeira na varanda da residência. Com receio de prejudicar o enxame, Márcia improvisou uma pequena caixa para protegê-lo. A partir daquele momento, nasceu um interesse que transformaria sua rotina.
“Eu fiquei com dó. Retirei e coloquei ela numa caixinha. Então passei a colocar iscas pra atrair enxames. Foi pela Jataí que veio o gosto pelas outras espécies”, relembra.
Sem acesso facilitado a cursos ou materiais especializados, ela iniciou um processo autodidata de aprendizado, observando o comportamento das colmeias e pesquisando técnicas de meliponicultura.
Hoje, o jardim da casa abriga espécies como Jataí, Borá, Marmelada e outras variedades nativas, cada uma com características próprias. Segundo Márcia, a convivência diária permitiu reconhecer até mesmo diferenças no cheiro de cada espécie.
“Quando vejo um tumulto nas caixas aqui no jardim, eu sei identificar pelo cheiro qual espécie está ali. Eu conheço o cheiro da Marmelada e da Borá”, conta.
O manejo exige atenção constante. Cada enxame precisa de caixas específicas, respeitando tamanho, ventilação e temperatura adequada para o desenvolvimento das colônias.
“Tudo isso eu fui aprendendo convivendo com elas, estudando, pesquisando, tentando aqui e ali”, afirma.
Entre os maiores desafios enfrentados pela apicultora esteve a busca pela rara Uruçu de Chão, considerada incomum na região de Chapada dos Guimarães. Determinada a comprovar a presença da espécie no município, Márcia percorreu terrenos vazios, estudou técnicas de localização e buscou conhecimento em outras cidades.
Mais do que a produção de mel, a criação das abelhas se transformou em uma missão de preservação. Para ela, ainda existe pouca valorização das espécies nativas, apesar da importância direta na produção de alimentos.
“Sem abelha não existe alimento. E as nossas abelhas nativas ainda são pouco conhecidas. Falta pesquisa, falta incentivo”, destaca.
Na cozinha da residência, vidros armazenam méis de diferentes espécies, cada um com sabor, textura e aroma únicos. O mel da Borá, por exemplo, desperta interesse gastronômico pelo sabor sofisticado e diferenciado.
Além do mel, Márcia também produz sabonetes artesanais e derivados como o hidromel. Apesar disso, ela afirma que a atividade é movida muito mais pela paixão do que pelo retorno financeiro.
“É muito mais amor do que retorno financeiro”, resume.
O trabalho desenvolvido pela apicultora também recebe acompanhamento técnico do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural de Mato Grosso (Senar-MT), por meio do Sindicato Rural de Chapada dos Guimarães. A técnica Rafaeli Gonçalves acompanha a produção das abelhas africanizadas da espécie Apis mellifera na propriedade rural da produtora.
“Nossa assistência é voltada à Apis melífera, mas a Márcia agrega muito para nós técnicos com as melíponas. É uma produtora com enorme potencial, muito dedicada”, afirma Rafaeli.
Atualmente, Márcia mantém mais de 20 caixas de abelhas africanizadas no sítio e já planeja ampliar a atividade com a extração da apitoxina, veneno produzido pelas abelhas e utilizado em pesquisas e terapias alternativas voltadas ao tratamento de dores e inflamações.
“É um sonho meu também auxiliar a área farmacêutica e cosmética, explorando novas possibilidades que agregam valor à produção apícola e criem novas fontes de renda no campo”, finaliza.



