Invisíveis nunca mais: nanoempreendedores ganham reconhecimento e revelam a força que sustenta a economia de Mato Grosso

De geladinhos a pamonhas, histórias reais mostram como trabalhadores informais movimentam o dia a dia e agora passam a ser reconhecidos oficialmente
Por Luciana Bueno / Foto Reprodução
Às cinco horas da manhã, quando boa parte de Cuiabá ainda dorme, Maria de Fátima já está em pé.
Na cozinha simples da casa onde vive com três netos, ela prepara dezenas de geladinhos que serão vendidos ao longo do dia. O trabalho é repetitivo, exige esforço e oferece pouco retorno financeiro. Ainda assim, é dele que sai parte do dinheiro para a alimentação da família.

“Não é muito, mas ajuda. Eu faço todos os dias, porque não posso parar”, conta.
Durante anos, Maria trabalhou sem registro, sem categoria profissional e sem qualquer reconhecimento formal. Como ela, milhares de trabalhadores sustentam suas famílias vendendo alimentos, artesanato, roupas, doces, salgados e diversos outros produtos, movimentando uma economia silenciosa que sempre existiu, mas raramente apareceu nas estatísticas oficiais.
Agora, uma mudança começa a lançar luz sobre essa realidade.
Com a regulamentação do nanoempreendedorismo, criada a partir da reforma tributária aprovada em 2025, trabalhadores de pequeno porte passam a receber reconhecimento institucional pela atividade que exercem diariamente.
Mais do que uma nova categoria econômica, a medida representa uma mudança de olhar sobre brasileiros que há décadas empreendem por necessidade.
A economia que sempre existiu
Muito antes da criação de programas de incentivo, linhas de crédito ou modelos simplificados de formalização, milhões de brasileiros já trabalhavam por conta própria.
Nas calçadas, nas feiras livres, em pequenas barracas improvisadas, nas portas de casa ou à beira das estradas, homens e mulheres criaram alternativas para sobreviver diante da falta de oportunidades no mercado formal.
São trabalhadores que não possuem empresa registrada, muitas vezes não conseguem emitir nota fiscal e enfrentam dificuldades para acessar crédito, benefícios financeiros ou programas de capacitação.
Ainda assim, seguem produzindo, vendendo e movimentando recursos diariamente.
A criação do nanoempreendedorismo busca justamente reconhecer essa parcela da população economicamente ativa que, apesar de contribuir para a economia, permanecia à margem dos mecanismos oficiais de desenvolvimento.
O que muda com o nanoempreendedorismo
A nova categoria contempla trabalhadores que exercem atividades econômicas de forma individual, utilizando apenas o CPF, sem necessidade de constituição de empresa.
O enquadramento é destinado a pessoas com faturamento anual de até R$ 40,5 mil e prevê isenção dos tributos IBS (Imposto sobre Bens e Serviços) e CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços).
Na prática, o objetivo é criar um ambiente mais favorável para trabalhadores autônomos que atuam em pequena escala, permitindo maior inclusão econômica e acesso futuro a políticas públicas específicas.
Para especialistas, trata-se de um reconhecimento histórico de uma atividade que sempre existiu, mas que nunca teve enquadramento próprio.

Sebrae-MT acompanha a transformação
Em Mato Grosso, o Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae-MT) acompanha a regulamentação da nova categoria e atua diretamente na orientação de trabalhadores que vivem dessa realidade.
Segundo o gerente de relacionamento da instituição, Fernando Holanda, a medida representa uma oportunidade importante para quem busca crescer de forma estruturada.
“Essas pessoas sempre empreenderam, mas sem qualquer tipo de enquadramento. O nanoempreendedorismo representa uma porta de entrada para organização e crescimento”, afirma.
Para Holanda, a iniciativa fortalece a inclusão produtiva e amplia oportunidades para trabalhadores que atuam na informalidade ou estão iniciando uma atividade econômica.

“O reconhecimento do nanoempreendedorismo permite enxergar com mais atenção a realidade de milhares de profissionais que trabalham por conta própria. Além de valorizar essas atividades de menor porte, a medida incentiva a independência financeira e cria condições para o crescimento desses empreendedores”, destaca.
O Sebrae-MT tem ampliado ações de orientação, capacitação e consultoria financeira para auxiliar trabalhadores que desejam evoluir futuramente para modelos formalizados, como o Microempreendedor Individual (MEI).
Geladinhos que ajudam a sustentar uma família
Para Maria de Fátima, as discussões sobre reforma tributária parecem distantes da realidade enfrentada todos os dias.
Seu foco está nas vendas.
Cada geladinho produzido representa uma pequena chance de complementar a renda familiar.
Se as vendas vão bem, há mais tranquilidade para comprar alimentos e pagar despesas básicas. Quando o movimento diminui, a preocupação aumenta.
Sem estrutura empresarial, sem funcionários e sem apoio financeiro, ela administra sozinha toda a produção.
Mesmo diante das dificuldades, continua acreditando que dias melhores podem chegar.
A possibilidade de ser reconhecida como trabalhadora e empreendedora representa algo que vai além da economia.
Representa dignidade.
Uma parceria construída dentro de casa
No centro de Cuiabá, José Santana trabalha diariamente vendendo salgados produzidos pela esposa, Lana.
A rotina começa cedo.
Enquanto Lana prepara coxinhas, pastéis e enroladinhos na cozinha de casa, José organiza os produtos e segue para o ponto de venda.

Tudo é feito de forma artesanal.
Não há funcionários, escritório ou grandes investimentos.
Existe apenas o esforço conjunto de um casal que transformou a cozinha da própria casa em fonte de sustento.
“É simples, mas é honesto. A gente faz com amor e vende para sobreviver”, diz José.
Ao longo dos anos, eles aprenderam a administrar compras, calcular custos e lidar com oscilações nas vendas sem qualquer formação empresarial.
A experiência veio da necessidade.
O talento que encontrou espaço no artesanato
Aline Silveira descobriu no crochê uma forma de gerar renda e manter viva uma habilidade aprendida ao longo da vida.
Hoje, produz bolsas, toalhas, biquínis e peças decorativas totalmente artesanais.
Cada produto exige horas de dedicação.

Os detalhes são feitos manualmente e o valor de venda nem sempre corresponde ao esforço investido.
Mesmo assim, ela continua.
“Tudo o que eu ganho, eu reinvisto. Mas crescer ainda é difícil”, afirma.
Sem acesso facilitado a crédito e trabalhando apenas com recursos próprios, Aline representa milhares de artesãos brasileiros que transformam criatividade em sustento.
À beira da estrada, uma história de resistência
Há mais de uma década, Margarete mantém uma pequena banca de pamonhas às margens de uma rodovia em Mato Grosso.
O trabalho começa antes do amanhecer.
Selecionar o milho, preparar a massa, embalar as pamonhas e organizar a venda fazem parte de uma rotina construída ao longo dos anos.
O movimento diário define quanto dinheiro entrará em casa.
Em dias bons, as vendas garantem tranquilidade.
Nos dias mais fracos, é preciso encontrar alternativas.

“Sempre trabalhei assim, por conta própria. Nunca tive uma categoria que me representasse”, conta.
Quando ouviu falar do nanoempreendedorismo, enxergou uma possibilidade que nunca havia considerado.
“Dá esperança. A gente sente que agora existe um olhar para quem começa pequeno.”
Seu sonho é simples: ampliar a estrutura, conquistar um ponto fixo e aumentar a produção.
Um avanço para a economia brasileira
Para o economista e consultor econômico Vivaldo Lopes, a criação da nova categoria representa um importante passo para o fortalecimento da economia nacional.
“O Brasil sempre teve uma economia sustentada por trabalhadores informais. O nanoempreendedorismo reconhece essa base e abre caminho para políticas públicas mais eficientes”, avalia.
Segundo ele, os benefícios vão muito além da questão tributária.

“Quando o Estado reconhece esses trabalhadores, passa a incluí-los no planejamento econômico. Isso gera desenvolvimento, amplia oportunidades e fortalece economias locais.”
Em estados como Mato Grosso, onde pequenos negócios possuem papel relevante na geração de renda, os impactos podem ser ainda mais significativos.
Os desafios continuam
Apesar dos avanços, especialistas alertam que o reconhecimento formal é apenas o primeiro passo.
Ainda existem obstáculos importantes a serem superados.
Entre eles estão a ausência de um sistema específico de cadastro, dificuldades para comprovação de renda, limitações na emissão de documentos fiscais e restrições no acesso ao crédito.
Na avaliação de especialistas, o sucesso da nova categoria dependerá da criação de mecanismos capazes de transformar reconhecimento em oportunidades concretas.
O Brasil que empreende por necessidade
Em muitos países, empreender é resultado de uma escolha.
No Brasil, frequentemente é uma necessidade.
Quando o emprego formal não aparece, milhões de pessoas criam sua própria alternativa de sobrevivência.
É o que fazem Maria, José, Lana, Aline, Margarete e tantos outros trabalhadores espalhados por Mato Grosso.
Eles não abriram negócios porque encontraram uma oportunidade extraordinária.
Abriram porque precisavam continuar.
Porque havia contas para pagar.
Filhos para criar.
Alimentos para colocar na mesa.
O futuro ainda está sendo escrito
A regulamentação do nanoempreendedorismo continua em construção.
A expectativa é que, nos próximos anos, sejam desenvolvidos mecanismos que ampliem o acesso a crédito, capacitação, proteção econômica e programas específicos para esse público.
O desafio agora é garantir que o reconhecimento saia do papel e alcance a vida real.
O Brasil que nunca parou
Enquanto reformas avançam nos gabinetes e mudanças legislativas seguem seu caminho, milhões de brasileiros continuam fazendo aquilo que sempre fizeram: trabalhando.
Nas ruas quentes de Cuiabá, nas margens das rodovias, nas feiras, nas calçadas e dentro de casa, histórias como as de Maria de Fátima, José e Lana, Aline e Margarete seguem acontecendo diariamente.
São trajetórias marcadas por esforço, criatividade e resistência.
Pessoas que construíram suas próprias oportunidades quando nenhuma outra apareceu.
Que transformaram pouco em suficiente.
Que mantiveram a economia funcionando sem reconhecimento, sem incentivos e, muitas vezes, sem qualquer visibilidade.
O nanoempreendedorismo não resolve todos os problemas.
Mas representa algo que vai além da burocracia.
Representa o reconhecimento de uma realidade que sempre existiu.
Para Vivaldo Lopes, o próximo passo é garantir inclusão efetiva.
“Não basta reconhecer. É preciso criar condições para que esses trabalhadores tenham acesso a crédito, capacitação, segurança econômica e oportunidades reais de crescimento.”

O Sebrae-MT já atua nesse processo, oferecendo orientação e suporte para que pequenos empreendedores possam evoluir com mais planejamento e segurança.
Mas existe algo que nenhuma política pública criou.
E que nunca faltou.
A força dessas pessoas.
São trabalhadores que acordam cedo, improvisam soluções, enfrentam dificuldades e seguem em frente.
O Brasil que aparece nos indicadores econômicos começa, finalmente, a se aproximar do Brasil real.
E esse Brasil real tem nome.
Tem rosto.
Tem história.
É o Brasil de quem nunca parou de trabalhar.
O Brasil de quem nunca foi invisível.
Só faltava o país enxergar.



