PRODUÇÃO DE GUARANÁ CRESCE EM MARCELÂNDIA E NOVEMBRO CONCENTRA O PICO DA COLHEITA
Com 92 anos, produtor Alberto Francisco Pereira mantém tradição de três décadas no cultivo, amplia a produtividade com assistência técnica e fortalece a sucessão familiar no campo.
DA REDAÇÃO | FOTO: SISTEMA FAMATO/SENAR-MT
O cultivo do guaraná, tradicionalmente associado à cultura e aos hábitos de consumo de Mato Grosso, começa a ganhar espaço como alternativa de renda e oportunidade de expansão para produtores rurais do estado. Em Marcelândia, no norte mato-grossense, a trajetória de Alberto Francisco Pereira, de 92 anos, é um exemplo de como a experiência no campo, a assistência técnica e o trabalho em família podem transformar os resultados de uma propriedade rural.
Há aproximadamente 30 anos, Alberto e sua família se dedicam ao cultivo do fruto no Sítio Bela Vista. Atualmente, os filhos participam diretamente das atividades de plantio, manejo e colheita, garantindo a continuidade da produção e fortalecendo a sucessão familiar.
Durante boa parte dessa trajetória, a lavoura enfrentou dificuldades para alcançar bons resultados. Apesar da área cultivada, a produtividade era limitada pela ausência de práticas adequadas de manejo. A realidade começou a mudar com a chegada da Assistência Técnica e Gerencial (ATeG) Fruticultura Perene, oferecida pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Rural de Mato Grosso (Senar-MT).
O acompanhamento técnico identificou a necessidade de reorganizar os cuidados com o guaranazal. Entre as primeiras medidas estiveram a poda para retirada do excesso de galhos, a correção da acidez do solo com aplicação de calcário, conforme análise, e a realização de adubações de cobertura.
As orientações passaram a fazer parte da rotina da propriedade e os resultados apareceram gradualmente. No primeiro ano de acompanhamento, a produção foi de aproximadamente 500 quilos, em uma área com cerca de três mil plantas. Com a adoção das recomendações técnicas, o rendimento aumentou e a expectativa da família é ultrapassar duas toneladas nesta safra.
Segundo a técnica de campo do Senar-MT, Marisia Gouveia Porsebom, a mudança de compreensão sobre os cuidados necessários com a lavoura foi determinante para a evolução da produção.
“Um dos principais fatores para esse crescimento foi quando o produtor entendeu que a lavoura precisava ser alimentada, com calcário e adubação. A partir do momento em que eles compreenderam isso, começaram a perceber os resultados no campo”, explica.
ASSISTÊNCIA TÉCNICA TAMBÉM MELHORA A GESTÃO
O avanço não ficou restrito ao volume produzido. O atendimento da ATeG também contribuiu para organizar a administração da propriedade. A família passou a registrar os resultados das colheitas, planejar as atividades e pesquisar os preços de insumos nas lojas agropecuárias do município.
Com essas informações, os produtores conseguem programar podas, adubações e períodos de colheita, considerando os custos de produção e o retorno esperado.
A adaptação às novas práticas exigiu diálogo e participação familiar. No início, houve resistência a algumas recomendações, especialmente em relação às podas e à necessidade de adubações complementares. A participação dos filhos foi importante para aproximar a experiência acumulada por Alberto das orientações técnicas apresentadas pela equipe.
Para Valdir de Oliveira Pereira, filho do produtor, trabalhar ao lado do pai representa orgulho e também a oportunidade de dar continuidade a uma atividade construída ao longo de décadas.
“A gente já trabalha com o guaraná há muitos anos, mas antes não fazia todos os manejos necessários e a produção não era boa. Depois que começamos a receber a assistência do Senar, a diferença foi grande. Valeu a pena. Tenho orgulho de trabalhar ao lado do meu pai e de continuar esse trabalho em família”, afirma.
Paulo de Oliveira Pereira, outro filho que participa da rotina do sítio, também destaca a importância do acompanhamento para manter e aprimorar a atividade rural.
“O Senar foi muito bom para nós e continua sendo um grande apoio. É um incentivo para melhorar cada vez mais. Temos orgulho de receber essa equipe na propriedade e de mostrar o nosso trabalho. Saber que o guaraná produzido aqui chega a outras regiões é motivo de muita satisfação e nos dá vontade de continuar”, relata.
O presidente do Sindicato Rural de Marcelândia, Marcelo Cordeiro, avalia que a experiência da família demonstra o potencial da cultura e a importância de iniciativas que ofereçam orientação aos pequenos produtores.
“O guaraná é uma cultura que ainda não é tão difundida em Mato Grosso, mas tem grande potencial para a nossa região. Com o apoio do Sistema Famato, do Senar-MT e de técnicos qualificados, os produtores conseguem melhorar o manejo e aumentar a produtividade. A história do seu Alberto é um exemplo muito bonito de sucessão familiar, com os filhos trabalhando juntos e dando continuidade à atividade rural”, destaca.
MATO GROSSO TEM POTENCIAL PARA AMPLIAR A PRODUÇÃO
Os números da Produção Agrícola Municipal (PAM) 2025, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), ajudam a dimensionar o mercado do guaraná no país.
O Brasil registrou aproximadamente nove mil hectares cultivados, com produção de 2.709 toneladas e valor de produção estimado em R$ 86,7 milhões.
A Bahia lidera em volume comercializado, enquanto o Amazonas apresenta o maior valor de produção. Juntos, os dois estados concentram aproximadamente 99% da área cultivada e 95% do valor nacional.
Mato Grosso ainda possui participação reduzida nesse mercado, mas apresenta indicadores relevantes. Em 2025, o estado contabilizou 105 hectares plantados, produção de 52 toneladas e valor de R$ 1,4 milhão.
Outro dado que chama a atenção é o rendimento médio estadual, de 495 quilos por hectare. O resultado coloca Mato Grosso na terceira posição entre os estados com registros e supera a média nacional, calculada em 290 quilos por hectare.
Os indicadores apontam espaço para o desenvolvimento da cultura, especialmente com investimentos em manejo, assistência técnica e organização da produção.
MERCADO E PERÍODO DE COLHEITA
A importância econômica do guaraná vai além do consumo tradicional do fruto ralado, bastante conhecido entre os mato-grossenses. A indústria de bebidas representa um dos principais mercados consumidores, especialmente na fabricação de refrigerantes e energéticos.
Por apresentar concentração de cafeína, o guaraná também é utilizado na produção de suplementos alimentares, cosméticos e produtos farmacêuticos.
A comercialização pode ocorrer na forma de guaraná em rama, diretamente para compradores, por meio de cooperativas ou para empresas responsáveis pelo processamento industrial. As amêndoas também podem ser transformadas em pó, xarope e extratos, produtos destinados a diferentes segmentos do mercado.
Em Mato Grosso, a colheita ocorre principalmente entre outubro e março, com concentração maior em novembro e dezembro. O período coincide com a abertura natural dos frutos, após a florada registrada no meio do ano.
A supervisora da ATeG Fruticultura e Olericultura do Senar-MT, Cristiani Bernini, explica que novembro representa o auge da colheita no estado e destaca o papel da assistência técnica no desenvolvimento da atividade.
“A colheita do guaraná em Mato Grosso acontece principalmente entre outubro e março, o auge é em novembro, período que coincide com a abertura natural dos frutos após a florada, que ocorre no meio do ano. A ATeG Fruticultura atende cinco propriedades rurais no estado”, afirma.
A experiência do Sítio Bela Vista mostra que a combinação entre conhecimento tradicional, orientação especializada e participação das novas gerações pode transformar a realidade de uma propriedade. Em Marcelândia, o trabalho iniciado há três décadas por Alberto continua com os filhos e ganha novas perspectivas de crescimento, acompanhando o potencial de uma cultura que ainda tem espaço para conquistar mercado em Mato Grosso.
O Povo MT segue acompanhando iniciativas que fortalecem o agronegócio, valorizam os produtores rurais e impulsionam o desenvolvimento econômico de Mato Grosso.



