Quando a nutrição vira esperança: bebida de soja transforma vidas e revela impacto social do agro em MT

Programa da Aprosoja MT leva suplementação alimentar a milhares de famílias e mostra como a cadeia da soja se conecta à segurança alimentar, inclusão social e desenvolvimento humano
Por Luciana Bueno / Foto: Aprosoja MT
UMA INFÂNCIA QUE COMEÇOU A MUDAR EM SILÊNCIO
Em uma sala de atendimento no interior de Mato Grosso, uma adolescente de 14 anos enfrenta uma rotina que, durante muito tempo, foi marcada por limitações que iam além da própria idade.
Talita dos Santos cresceu convivendo com diagnósticos complexos, dificuldades no desenvolvimento e restrições alimentares severas. Durante anos, o simples ato de se alimentar se transformou em um desafio diário.
Mas algumas mudanças acontecem sem grandes anúncios.
Elas surgem lentamente.
Primeiro em pequenas reações, depois na disposição, no ganho de peso, na energia para enfrentar a rotina.
Na história de Talita, parte dessa transformação começou dentro de um copo.

O que poderia ser visto apenas como um suplemento alimentar tornou-se um elemento importante dentro de uma trajetória construída entre cuidados médicos, acompanhamento especializado e apoio social.
Em Campo Novo do Parecis, essa mudança não acontece isoladamente.
Ela faz parte de uma rede que une família, profissionais de saúde, instituições sociais e um programa criado a partir do setor produtivo rural.
E é nesse encontro entre campo, assistência e desenvolvimento humano que a história de Talita passa a representar algo maior do que uma experiência individual.
UMA ROTINA MARCADA POR RESTRIÇÕES
Talita convive desde a infância com uma condição complexa de saúde que inclui alteração genética no cromossomo 18, atraso global do desenvolvimento e Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH).

Entre os desafios enfrentados, a alimentação sempre esteve entre os mais delicados.
A seletividade alimentar severa restringia a alimentação a poucos itens específicos, exigindo acompanhamento constante da família e de profissionais especializados.
A mãe, Maria Santos, lembra do período como uma fase de preocupação permanente.
“Foi um período muito difícil, porque ela tinha uma alimentação muito limitada. A bebida de soja entrou nesse processo e ajudou a mudar a vida da minha filha”, relatou.
Hoje, Talita consegue perceber mudanças que antes pareciam distantes.
“Hoje me sinto mais forte. Antigamente, qualquer coisa que fazia, já me sentia muito cansada”, contou.
O relato curto carrega uma dimensão que os números nem sempre conseguem medir: a transformação da rotina.
O PAPEL DA APAE NO ACOMPANHAMENTO

Na APAE de Campo Novo do Parecis, a bebida passou a integrar o plano alimentar da adolescente como suplemento complementar.
A nutricionista Kauana de Souza explica que a inclusão ocorre dentro de um acompanhamento contínuo realizado pela equipe multiprofissional da instituição.
Segundo ela, o objetivo é contribuir para o desenvolvimento nutricional e físico dos atendidos, respeitando as necessidades individuais de cada caso.
A direção da unidade também avalia que o suporte alimentar ampliou o alcance do atendimento às famílias em situação de vulnerabilidade.
AGROSOLIDÁRIO E O ALCANCE EM MATO GROSSO

A iniciativa faz parte do programa Agrosolidário, desenvolvido pela Aprosoja Mato Grosso.
O projeto realiza a distribuição de bebida de soja para instituições sociais em diversas regiões do estado e também no Distrito Federal.
Atualmente, cerca de 30 mil famílias são atendidas anualmente por meio de 79 instituições parceiras.
O programa é mantido por mais de 9,2 mil produtores associados.
Para o presidente da Aprosoja MT, Lucas Costa Beber, a iniciativa amplia a função social do setor produtivo.

“A produção de alimentos em grande escala já possui impacto social importante. O Agrosolidário fortalece esse compromisso ao apoiar entidades e famílias em situação de vulnerabilidade”, afirmou.
A INFÂNCIA COMO PONTO DECISIVO
Em Nova Mutum e região, a atuação ocorre em parceria com a Pastoral da Criança da Diocese de Diamantino.
A coordenadora diocesana, Kety Casanova, destaca que o foco não está apenas na entrega de alimentos, mas também na educação alimentar e no acompanhamento das famílias.
“O período entre zero e seis anos é determinante para a formação da saúde física e cognitiva”, afirma.
A preocupação encontra respaldo em estudos recentes sobre a realidade da infância no Brasil.

Levantamento divulgado em 2025 pelo UNICEF mostrou que, apesar dos avanços registrados no país, 28,8 milhões de crianças e adolescentes brasileiros ainda vivem em situação de pobreza multidimensional, realidade que envolve fatores como renda insuficiente, acesso limitado à educação, moradia adequada, saneamento, informação e alimentação.
O Fundo das Nações Unidas para a Infância também destaca que os primeiros anos de vida exercem influência direta sobre o desenvolvimento físico, cognitivo e emocional, podendo gerar impactos permanentes quando existem deficiências nutricionais e sociais.
REFLEXOS NAS COMUNIDADES
Na comunidade rural do Ranchão, os resultados também são percebidos no cotidiano.

A coordenadora Angélica Carnoski acompanha famílias atendidas pela iniciativa e relata mudanças observadas ao longo do acompanhamento.
“O retorno das famílias é positivo. Muitas relatam melhora na disposição das crianças e também dos idosos”, afirmou.
Segundo ela, alguns casos chamaram atenção ao longo do acompanhamento.
Uma criança diagnosticada com atrofia muscular apresentou avanços importantes no desenvolvimento após a inclusão da bebida na alimentação.
ENTRE PRODUÇÃO E RESPONSABILIDADE SOCIAL
Além do impacto direto nas famílias, a iniciativa também amplia o debate sobre o papel social da cadeia produtiva da soja em Mato Grosso.

Maior produtor nacional do grão, o estado concentra uma atividade que movimenta a economia, gera empregos e, cada vez mais, incorpora discussões ligadas à sustentabilidade e ao impacto social.
Entre as práticas adotadas no setor estão manejo integrado de pragas, uso racional de recursos naturais e tecnologias voltadas à eficiência produtiva.
Para Lucas Costa Beber, crescimento econômico, responsabilidade ambiental e desenvolvimento humano precisam caminhar juntos.
“A produção de alimentos precisa estar alinhada à responsabilidade social e ambiental. O produtor rural tem avançado em tecnologia e sustentabilidade para gerar impacto positivo além da porteira”, afirmou.
UMA TRANSFORMAÇÃO QUE GANHA ROSTO
No fim, a história de Talita não é apenas sobre alimentação.
É sobre continuidade.
Sobre mudanças que acontecem lentamente e que muitas vezes passam despercebidas.
Em uma casa simples, cada avanço representa mais do que ganho nutricional.
Representa cuidado.
Representa possibilidade.
Representa futuro.
Quando iniciativas como o Agrosolidário chegam às comunidades, os números deixam de ser estatísticas.
Eles passam a ter nome, rotina e histórias reais.
No interior de Mato Grosso, onde vulnerabilidade e distância muitas vezes caminham juntas, algumas transformações começam de maneira simples.
Às vezes, dentro de um copo.
Mas seus efeitos podem alcançar uma vida inteira.



