Redeiras de Várzea Grande conquistam espaço nacional e fortalecem tradição centenária com apoio da Secel

Projetos financiados por editais impulsionaram a produção artesanal do Limpo Grande, ampliando vendas, parcerias e reconhecimento da cultura mato-grossense
Andréa Haddad | Secel-MT | Foto: Fred Gustavos
Uma tradição preservada por gerações de mulheres no distrito de Limpo Grande, em Várzea Grande, vem ganhando cada vez mais visibilidade dentro e fora de Mato Grosso. Com o apoio de editais e programas desenvolvidos pela Secretaria de Estado de Cultura, Esporte e Lazer (Secel-MT), as artesãs da Associação das Redeiras de Limpo Grande (Tece Arte) transformaram um saber ancestral em oportunidade de renda, valorização cultural e projeção nacional.
O crescimento da associação ganhou força após a participação no programa Move_MT, iniciativa voltada ao desenvolvimento da economia criativa. A partir da experiência, as redeiras passaram a ampliar sua presença em feiras, estabelecer parcerias com estilistas renomados e aumentar significativamente a comercialização de suas peças artesanais.
Fundada em 2021 por 15 mulheres, a associação reúne atualmente 53 artesãs que trabalham para manter viva uma técnica herdada dos indígenas da etnia Guanás. A presidente da entidade, Jilaine Maria da Silva Brito, explica que a formalização foi fundamental para evitar o desaparecimento da tradição.
Segundo ela, a falta de mercado quase levou o ofício à extinção. Com a criação da associação, as artesãs passaram a divulgar o trabalho, conquistar novos clientes e receber visitantes interessados em conhecer a produção artesanal desenvolvida na comunidade.
A técnica de tecelagem é transmitida de mãe para filha há várias gerações. Jilaine aprendeu a tecer aos 12 anos com a mãe, seguindo uma tradição familiar que atravessa décadas e faz parte da identidade cultural do Limpo Grande.
Antes da organização coletiva, muitas mulheres haviam abandonado os teares devido à dificuldade de comercialização. Em alguns casos, uma única rede levava até um ano para encontrar comprador. Hoje, a realidade é diferente. Enquanto anteriormente eram vendidas cerca de dez redes por ano, em 2025 a associação comercializou aproximadamente 80 peças, além de bolsas, xales, saídas de praia, biquínis e outros produtos.
As redes artesanais variam entre R$ 2,3 mil e R$ 5,5 mil, sendo as peças na faixa de R$ 4,5 mil as mais procuradas pelos clientes. A renda obtida tem contribuído diretamente para melhorar a qualidade de vida das artesãs e de suas famílias.
Um dos momentos mais marcantes da trajetória da associação aconteceu após a participação de Jilaine no programa Move_MT. Durante um intercâmbio realizado no Rio de Janeiro, ela conheceu a estilista brasileira Isabela Capeto. A aproximação resultou em uma parceria para a produção de bolsas exclusivas que conquistaram rapidamente o público da designer.
O reconhecimento abriu portas para novos projetos. Posteriormente, as redeiras também desenvolveram peças em parceria com o estilista Amir Slama, levando a cultura do Limpo Grande à passarela da São Paulo Fashion Week, considerada uma das maiores vitrines da moda nacional.
Além da expansão comercial, a associação foi contemplada em um edital voltado à preservação do patrimônio cultural. O projeto prevê a criação de um inventário digital que registrará toda a história, os processos produtivos, os equipamentos utilizados e o vocabulário próprio da atividade, garantindo que o conhecimento seja preservado para as futuras gerações.
A singularidade do trabalho das redeiras está na chamada tecelagem em ponto cheio, técnica que permite a criação de desenhos visíveis dos dois lados da peça, sem avesso. Entre os temas mais utilizados estão elementos da fauna pantaneira, como araras e tucanos, reforçando a identidade cultural mato-grossense.
Para a superintendente de Desenvolvimento da Economia Criativa da Secel, Keiko Okamura, iniciativas como o Move_MT demonstram como as políticas públicas podem gerar resultados concretos para comunidades tradicionais, promovendo desenvolvimento econômico aliado à preservação cultural.
Entre as guardiãs desse saber está Júlia Maria da Silva, de 68 anos, mãe de Jilaine. Ela aprendeu a tecer ainda adolescente, em uma época em que as redes eram produzidas para uso familiar e o algodão era plantado, colhido e fiado manualmente.
Após anos sem produzir devido à falta de compradores, Júlia retornou ao tear graças ao fortalecimento da associação. Hoje, ela celebra não apenas a geração de renda, mas também o reconhecimento conquistado pelas artesãs do Limpo Grande.
O próximo desafio do grupo é ampliar ainda mais a presença da comunidade no cenário nacional e internacional. Com apoio da ApexBrasil, as redeiras estudam possibilidades de exportação e trabalham para inserir o distrito em roteiros de turismo cultural, aproveitando o crescente interesse de visitantes pela tradição artesanal que resiste ao tempo.
Para as artesãs, os editais culturais tiveram papel decisivo na transformação de uma atividade ameaçada em uma importante fonte de renda, autoestima e valorização da identidade mato-grossense.




