DEFENSORIA ATENDE FAMÍLIAS DE CRIANÇAS NEURODIVERGENTES EM AÇÃO SOCIAL EM CUIABÁ

Atendimento no bairro Novo Mato Grosso ofereceu orientação jurídica e encaminhamentos para famílias que enfrentam dificuldades na rede pública de saúde
Da Redação
Foto: DPEMT
A Defensoria Pública do Estado de Mato Grosso (DPEMT) participou, no sábado (15), de uma ação social voltada a mães e familiares de crianças e adolescentes neurodivergentes, realizada na Escola Municipal de Educação Básica Irmã Maria Betty de Souza Pires, no bairro Novo Mato Grosso, em Cuiabá.
Das 7h30 às 11h30, equipes da instituição ofereceram orientação jurídica, esclareceram dúvidas e realizaram encaminhamentos para auxiliar famílias que enfrentam dificuldades para conseguir diagnóstico, acompanhamento e tratamentos especializados pela rede pública de saúde.
A iniciativa integrou o Projeto Social Mãe Atípica, que reuniu diferentes instituições e profissionais para ampliar o acesso das famílias a serviços essenciais.
Durante a ação, foram disponibilizados 60 atendimentos em áreas como optometria, fonoaudiologia, psicologia, clínica-geral, medicina da família e odontologia. Também foram realizados exames de eletrocardiograma e radiografia panorâmica.
DIFICULDADE DE ACESSO A ESPECIALISTAS
Entre as principais demandas apresentadas à Defensoria estavam a dificuldade para conseguir consultas e tratamentos em neurologia, psicologia, psicopedagogia e fonoaudiologia.
O coordenador do Grupo de Atuação Estratégica em Saúde Mental (Gaedic/Saúde Mental), defensor Dennis Thomaz Rodrigues, explicou que as famílias receberam orientações sobre os caminhos administrativos e jurídicos para buscar os serviços necessários.
“A demanda por diagnóstico e tratamento de crianças e adolescentes atípicas é crescente e essas famílias encontram inúmeras dificuldades para conseguir identificar o problema e tratá-lo. Para esses casos, a Defensoria Pública existe e tem uma equipe apta a dar andamento em suas necessidades”, afirmou.
A participação da instituição ocorreu após a aproximação de mães atípicas com a Ouvidoria da DPEMT. Segundo o ouvidor-geral, Getúlio Pedroso, o objetivo foi estabelecer uma ponte entre as famílias e os serviços públicos disponíveis.
“A Ouvidoria foi procurada pelas mães atípicas para fazer a ponte entre a Defensoria e a população, diante da dificuldade que elas encontram para ter acesso aos serviços públicos de saúde”, explicou.
ESPERA POR TRATAMENTO
A diretora da EMEB Irmã Maria Betty, Flávia Fernanda de Magalhães, destacou que a escola atende crianças de quatro a 11 anos e acompanha situações em que são percebidos atrasos no desenvolvimento ou características que indiquem a necessidade de avaliação especializada.
Segundo ela, a realidade socioeconômica da comunidade aumenta a dependência das famílias em relação à rede pública.
“Precisamos de neurologistas, psicólogos, fonoaudiólogos e psicoterapeutas. Desde o TEA até outros transtornos e deficiências, conseguimos perceber sinais aqui. Como estamos em uma comunidade muito carente, as famílias dependem da rede pública, e há crianças que chegam a esperar até três, quatro anos por uma psicoterapia”, relatou.
Para a diretora, concentrar diferentes serviços em um mesmo espaço facilita o acesso, especialmente para famílias que ainda estão investigando as necessidades dos filhos.
FAMÍLIA BUSCA CONTINUIDADE DO ATENDIMENTO
A moradora do bairro Dr. Fábio II, Gilmara Lima Oliveira, procurou a Defensoria durante a ação para buscar auxílio para os dois filhos, ambos diagnosticados com Transtorno do Espectro Autista (TEA).
Segundo ela, os adolescentes estão sem acompanhamento especializado. A filha, de 15 anos, recebia atendimento psicológico semanal, mas o serviço foi interrompido após o encerramento de um contrato do Governo.
“Quando ela fica sem o tratamento, fica isolada, sem ânimo, sem disposição e tem dificuldade para se expressar e se impor. E o meu filho de dez anos, ainda não conseguiu acompanhamento para definir o tratamento pelo SUS”, contou.
A Defensoria informou que situações relacionadas à falta ou interrupção de serviços de saúde podem ser analisadas e encaminhadas administrativamente ou pela via judicial, quando necessário.
PROJETO QUER CHEGAR A DEZ ESCOLAS
A ação foi organizada pela associação Obra Social Autista Maternidade Atípica. A presidente da entidade, Julien Steffani Carmo, conta que passou a desenvolver trabalho voluntário depois que os quatro filhos foram diagnosticados com autismo, TDAH, dislexia e outras condições.
A experiência pessoal levou Julien a ampliar a atuação junto a outras famílias que enfrentam dificuldades para obter diagnóstico e tratamento.
“Esse evento foi pensado para atender, acolher e abrir acesso das famílias para os serviços. Oferecemos atendimento jurídico, com a Defensoria Pública e atendimentos de fonoaudiologia, odontologia e psicologia. Sou mãe de quatro e vivo as dificuldades na pele, sei o que essas mães e essas famílias passam todos os dias”, afirmou.
A intenção, segundo ela, é ampliar o projeto para outras unidades escolares. “Daqui até o final do ano pretendemos levar o atendimento ao total de dez escolas”, acrescentou.
AUTISMO E SUPERAÇÃO NO AUTOMOBILISMO
O evento também contou com a participação do piloto de automobilismo Dimy Kalinowiski, que se apresenta como o primeiro piloto de corrida autista do país e único federado. Com nível 2 de suporte, ele participa de competições de kart e outras categorias.
Durante o encontro, Dimy compartilhou com as famílias sua experiência após receber o diagnóstico de autismo e destacou como a identificação das características ajudou a compreender dificuldades enfrentadas ao longo da vida.
“O diagnóstico demorou muito. Foram anos percebendo que eu era diferente por alguma razão. Quando veio, explicou os motivos de muita coisa e me ajudou a me entender melhor”, relatou.
No automobilismo, o piloto encontrou uma atividade na qual conseguiu desenvolver suas habilidades. Segundo ele, o kart também contribuiu para fortalecer sua confiança.
“Antes do diagnóstico, eu tentava fazer algumas coisas e nada dava certo. Era ruim na escola, no futebol e em outras atividades que tentei. Mas, depois que comecei a dirigir kart, que era algo que eu sempre quis, descobri algo em que sou muito bom e amo fazer”, contou.
Vice-campeão mato-grossense e campeão da Copa Campo Verde, Dimy afirmou que sua participação teve como objetivo incentivar crianças e famílias neurodivergentes.
“Muitos duvidavam que eu conseguiria fazer alguma coisa e chegar onde cheguei. Vir aqui é importante para mostrar que ser autista não nos impede de fazer algo bem. Um autista pode muito”, concluiu.
Durante os atendimentos da Defensoria, o defensor Dennis Thomaz Rodrigues contou com o apoio das servidoras Claudenilde Lopes, Tatiana da Silva e Tainá de Oliveira.
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